A crise mundial, a recessão em muitos países e o consequente aperto no crédito têm feito dos consórcios as estrelas da vez. No Brasil, somente em outubro foram negociadas mais de 168 mil cotas, o maior volume mensal desde maio de 2005.

Em meio à instabilidade, o brasileiro tem optado pela zona de segurança. Nos consórcios não há juros, apenas uma taxa de administração.

Presidente da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (Abac), o londrinense Rodolfo Montosa afirma que o crescimento atinge todas as modalidades de consórcios no mercado: o setor de veículos pesados cresceu 55,5%, seguido por imóveis (20%), carros (12%) e motos (5,1%).

No paralelo com as retrações de mercado, como vai o segmento de consórcios?
Fechamos 2008 com um crescimento de 10% e nossa estimativa, para 2009, é manter esse índice.

A nova Lei de Consórcios, que entra em vigor no início de fevereiro, colabora nesse processo?
A Lei de Consórcios estabiliza a relação consorciado, grupo, administradora e Banco Central e não necessariamente impulsionará mais do que já vem acontecendo. De qualquer forma, ela tem um aspecto de impulso no que se refere à criação de uma nova modalidade, que é o consórcio de serviços, atualmente não existente. O consórcio de serviços poderá ser mais uma alternativa para o consumidor programar gastos, por exemplo, para saúde, como cirurgias eletivas médicas e serviços atrelados a determinados bens. Cito exemplo: se a pessoa compra um carro e quer fazer uma blindagem; ou compra um carro e quer fazer uma retífica de motor, uma recuperação do veículo, o consórcio de serviços pode ser boa alternativa.

Como o senhor avalia o comportamento do consumidor brasileiro?
A educação financeira no Brasil ainda é muito aquém daquilo que deveria ser. Não temos tradição de ensinar a respeito de dinheiro de geração para geração. Aqueles que têm se utilizado dos consórcios se beneficiam dessa ferramenta como uma espécie de personal trainner que ajuda nessa educação. O movimento cresce, mais pessoas se conscientizam de que é preciso ter uma relação com o futuro mais preventiva e um consumo mais equilibrado no presente.

O brasileiro está fugindo de financiamentos? Ou a restrição ao crédito traz maior adesão aos consórcios?
Não. Percebo que houve uma restrição muito mais acentuada ao crédito. O que estava acontecendo anteriormente era uma liberação dos padrões de aprovação normais de crédito em função de muito dinheiro disponível. Empacotava-se um produto financeiro e vendia-se esse produto para alguma securitizadora, para algum fundo. Com a crise mundial, houve grande questionamento sobre a qualidade desses recebíveis. Isso fez com que o comportamento dos agentes financeiros fosse mais cauteloso.

A cautela faz as pessoas se educarem mais financeiramente?
O mês de dezembro é o mês mundial das promessas: em relação à saúde, aos relacionamentos, e também às finanças. O brasileiro sabe o que precisa fazer, mas não o faz na prática. Como diz um ditado oriental, saber e não fazer é não saber. O brasileiro não sabe exatamente o que é ser preventivo na sociedade, o que é separar de 15% a 30% de sua renda para poupar, porque ele vai consumir no futuro. O desafio ainda é muito grande, pois ainda temos contra esse raciocínio um hábito de simplesmente viver o presente, deixando que o futuro ''se acerte''. A qualidade de vida passa pelas decisões financeiras. Mais de 50% das separações conjugais, por exemplo, têm origem financeira, segundo recentes estatísticas.

Em entrevista à FOLHA, o presidente do Secovi-PR enalteceu a busca pelos imóveis, como investimento seguro. No segmento de consórcios funciona assim?
Há uma diversidade muito grande de interesses dos brasileiros. Em termos de consórcio, o produto mais popular é o de motocicletas, o veículo mais acessível, o número um para a grande massa. Existe, também, um grande interesse por veículos usados, que agora têm sofrido um pouco mais por conta da crise e da restrição do crédito. Em termos de índices, a busca pelos consórcios de pesados foi a que mais cresceu, com alta de cerca de 60% em relação ao ano passado. A relação com imóveis vai ser ainda mais acentuada. Quem quer investir, está inseguro em relação a outros investimentos mais eufóricos. A cada cem brasileiros, 78 associam o imóvel à relação de investimento em longo prazo.

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