No dia 9, por iniciativa dos vereadores Roberto Kanashiro, Márcia Lopes e Félix Ribeiro, a Câmara Municipal de Londrina outorgou o título de Cidadã Honorária à Dra. Zilda Arns, a quem havia homenageado recentemente, em nome da Pastoral da Criança. Esta não é, porém, apenas mais uma homenagem prestada pelo Legislativo londrinense. Trata-se de uma homenagem a uma cidadã paranaense e brasileira cujo nome, embora de forma indireta, está sendo proposto pelo governo e pelo povo brasileiro para receber o Prêmio Nobel da Paz.
A simples possibilidade dessa conquista, que nos enche de orgulho e de admiração é prenúncio justificado de nosso reconhecimento. Afinal de contas, é a primeira vez que homenageamos alguém, com relevantes serviços prestados à nossa comunidade, que tenha sido indicado oficialmente à conquista de tão digna honraria em nível mundial.
Dra. Zilda Arns: seu nome hoje ecoa em todas as comunidades carentes dos 27 Estados brasileiros. Suas idéias, suas obras se fazem presentes no Paraguai, na Bolívia, no Peru, na Venezuela, na Argentina, no Chile, no Equador, em Angola e na Guiné-Bissau... Quem é você, mulher, que hoje é perfilada ao lado dos maiores humanitaristas e benfeitores da humanidade?
Zilda Arns é natural de Forquilhinha, uma colônia teuto-italiana do Sul do Estado de Santa Catarina, na região de Criciúma, filha de Gabriel Arns e Helena Steiner, família de imigrantes cujo rigor na educação dos filhos só não sobrepujava o enorme calor humano com que eram criados.
Após os estudos elementares com religiosas na terra natal, Zilda foi estudar em Curitiba, onde concluiu o ginásio no Colégio Divina Providência e o científico no Colégio Coração de Jesus. Concluiu o curso de medicina no ano de 1959 na Universidade Federal do Paraná.
De lá para cá, em sua trajetória como médica-sanitarista Zilda Arns começou a ser delineada por opção e consolidada por devoção. Casada e mãe de cinco filhos, ela sempre encontrou tempo para se dedicar à infância desamparada e à maternidade desvalida, tão comuns em sua cidade, neste Estado, neste País e na maior parte do mundo.
Mas como é que surge uma vocação tão abençoada por Deus e ao mesmo tempo tão espinhosa, tão absorvente, tão exigente de dedicação total? O que é que leva alguém a abraçar uma causa tão altruísta, tão abnegada, tão cristã?
Assim como o semeador, no início da jornada de que nos fala Cristo, muitas de suas sementes caíram à beira dos caminhos e as aves de sua inexperiência e da descrença alheia as comeram. Mas a semeadora não desanimou, pois, assim como o semeador da parábola, estava consciente de sua missão: para que haja comida, para que haja vida, alguém tem que semear, alguém tem que educar; alguém tem que orientar para que não haja fome, para que não haja doença, para que não haja dor, para que não haja morte. E lá se foi nossa semeadora pelo vasto campo do mundo e da miséria.
Muita semente também foi lançada nos terrenos pedregosos e superficiais dos interesses políticos mesquinhos e das vaidades pessoais insatisfeitas dos que desejam resultados imediatos e querem colher rapidamente frutos que demoram a amadurecer. Outras idéias, outras lutas e outras sementes caíram no meio dos espinheiros da falta de apoio e de outros dramas próprios da pobreza.
Mas grande parte das sementes da Dra. Zilda Arns caiu em terra boa e produziu uma colheita tão abundante que chegou a maravilhar não só a semeadora, mas a todo o mundo, pois da semente pioneira iniciada em Florestópolis, na Arquidiocese de Londrina, brotaram nada menos que quase 32 mil comunidades da Pastoral da Criança, que envolvem dezenas de milhares de voluntários em milhares de municípios brasileiros e localidades do exterior.
Essa fantástica colheita, essa plantação gigantesca (para a qual contribuiu também decisivamente nosso ex-arcebispo de Londrina e hoje cardeal D. Geraldo Majela Agnelo), essa fantástica obra humanitária nasceu das sementes de nossa homenageada. Hoje com certeza já se podem contar milhões de mães e recém-nascidos para quem a atuação da Pastoral da Criança foi e está sendo decisiva na assistência ao pré-natal, no aleitamento, na higiene e na saúde, na educação e na formação.
Num mundo cada vez mais preocupado com o progresso material e a corrida tecnológica, sufocado pelo consumismo, pressionado pelo desemprego crescente e pelo esgotamento das reservas energéticas, é bom, é reconfortante, é animador, é vital que haja uma instituição como a Pastoral da Criança e pessoas como a Dra. Zilda Arns, gente que não procura dividendos políticos ou financeiros; gente que semeia porque é importante semear, sem se preocupar se haverá bons resultados. ‘‘Navegar é preciso’’: é preciso enfrentar os ventos contrários e lutar pela conquista definitiva da dignidade humana, de sua cidadania, de sua condição de obra divina.
É por isso que nós, munícipes londrinenses, deveríamos nos colocar em silêncio em respeito a tão alta personalidade; em respeito à Dra. Zilda Arns, pois só quem é realmente ungido por Deus seria capaz de tão digna e divina obra.
O título de Cidadã Honorária de Londrina é o reconhecimento de nossa Câmara e de nossa sociedade ao mérito de alguém que já é cidadã do mundo e que já foi homenageada em todos os continentes. Mas, Dra. Zilda, a Pastoral da Criança nasceu aqui, na Arquidiocese de Londrina; por isso hoje a senhora é, mais do que nunca, cidadã londrinense.
- FÉLIX RIBEIRO é vereador pelo PPS em Londrina

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