Zelaya um hóspede incômodo para o Brasil
O anseio de todo governante é perpetuar-se no poder, porque cada um deles julga-se melhor que seus antecessores; que, sozinho, fez mais obras que todos os outros juntos; e que sem ele será o caos. Hugo Chávez e Manuel Zelaya tentaram reverter regimentos constitucionais para continuar no comando, e até o presidente Lula chegou a sonhar com um terceiro mandato consecutivo, embora sempre tenha negado isso em seus discursos. Já agora ele pensa em retornar ao poder após o mandato de quatro anos do sucessor (que ele espera seja do PT), sem pensar na eventualidade de que este (seja do seu partido ou de outro) pleiteie a reeleição.
O candidato que for eleito no ano que vem já sabe então que, ao final de seu primeiro mandato, já terá Lula como concorrente. Se for Dilma Rousseff ou Ciro Gomes (este a opção B na preferência de Lula), ou for José Serra ou algum outro, que se precavenham, porque terão como opositor ninguém mais senão ele.
Mas o ''imbróglio'' em evidência no momento é a hospedagem que o Governo do Brasil concede ao presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya. Trata-se, por ora, de um hóspede que chegou à embaixada do Brasil com mala e tudo e recebeu o beneplácito do abrigo. Tendo retornado em segredo ao seu país depois de expulso por um golpe de Estado - arquitetado pelo Congresso, pela Suprema Corte e pelo Exército -, Zelaya acabou criando um problema para a diplomacia brasileira. Lula declara que Zelaya não tem prazo para ir embora, mas Honduras pode reclamar uma das duas saídas: abrir caminho para o presidente deposto deixar o país, ou o Brasil entregá-lo à Justiça hondurenha. Não há risco de uma invasão à embaixada porque os ditadores no poder não quebrariam uma norma internacional (a de que embaixadas são invioláveis) e ademais uma atitude extrema representaria um rompimento das relações com o Brasil e um descrédito perante o mundo. Os golpistas hondurenhos não chegariam a tanto. Mas a trapalhada está aí e não teria repercussão maior se o presidente Lula não levantasse bandeira tão ostensiva em defesa do ex-colega, inclusive em discurso nas Nações Unidas.
Manuel Zelaya na embaixada passa a ser um pequeno incômodo para o Brasil e um desgaste também para o presidente Lula, que se engaja gratuitamente em causas desse gênero. Uma saída diplomática por parte do Brasil - já que Honduras terá eleição presidencial dentro de dois meses - é favorecer outra saída: a de Zelaya da embaixada brasileira, mesmo que trazendo-o para o Brasil, que assim ninguém mais se incomodaria com ele.
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