Walmor Maccarini
Já que o mundo vai acabar...
Walmor Maccarini
Fim de milênio, está próximo o fim do mundo terreno. Nossos avós diziam que não passaríamos do ano 2000. Então, que estejamos preparados! Pra começo, já que nos restam apenas 2 anos e 11 meses, vamos abandonar essa obstinada busca de segurança, que aí deixaremos de viver no medo; acreditar que não precisamos de muitas posses, e assim deixaremos de viver na limitação. Vamos nos sintonizar com nossos dons espirituais, que temos mantido ocultos no nosso recôndito mais profundo, e assim veremos afastarem-se as sombras. Abandonar as mesquinharias, e descobriremos que elas têm sido um entrave para nossa evolução.
Como não temos certeza para onde iremos depois, e não sabemos se nesse lugar existem flores, melhor é contemplar agora todas as que nos rodeiam, inclusive aquelas que nunca notamos e que estão penduradas, qual multicoloridos pingentes, nas árvores bem defronte de nossas casas. Por via das dúvidas vamos reparar nos pássaros e ver como cantam e namoram e cortam o espaço, livres.
Também não temos certeza se, onde iremos depois do fim do mundo, poderemos contemplar as estrelas, então é bom aproveitar o tempo que nos resta e observar como elas piscam para nós, enamoradas. Perceber que à noite o sol vai dormir mas a lua chega para montar guarda e manter iluminados os nossos sonhos. Ver que nas manhãs há gotas de orvalho na relva de nosso jardim, qual diamantes encravados, e que ao acordar do sol se contraem para não ofuscar o astro-rei. Vamos aspirar bem fundo o oxigênio, e quem sabe descobriremos que ele nos tem mantido vivos.
Nos resta pouco tempo para cumprir promessas esquecidas; e para pedir perdão e perdoar, pois faz horas que vimos adiando isto e não sabemos se, lá onde nos enviarem, iremos reencontrar essas pessoas, sob pena de não nos livrarmos dessa carga para toda a eternidade.
Temos tão pouco tempo que já não faz diferença se não somos ricos quanto o vizinho, então melhor é varrer da mente aquela inveja que nos tem corroído.
Quem sabe no lugar onde iremos não existam riachos; então não vamos perder a oportunidade de nos debruçarmos e ouvir o murmúrio das águas.
Olhar as cores de todas as coisas e assim descobrir que o mundo é povoado de tanta beleza, e nunca havíamos notado.
Já que muito aprisionados por ambições terrenas, não temos partilhado das alegrias do sucesso alheio, então não será mau experimentar essa emoção e ver que sabor tem.
Se não temos administrado bem nossas tarefas, ao longo da vida, vamos nos mirar naqueles que o fizeram com maestria e saber como o conseguiram, pois no outro plano de vida que iremos habitar poderemos precisar dessa bagagem.
Acabado este mundo, a Suprema Providência - que nunca nos desampara - nos enviará certamente para outra morada. Ela poderá ser pior que a nossa, então nestes anos que nos restam precisamos ir aprendendo como restaurá-la. E se for melhor, não podemos chegar lá impregnados de poeira e de vícios, ou poderão nos barrar a entrada. Temos também que, a toque de caixa, exercitar a arte de não poluir o ambiente que elegemos para morar, e não ferir nossos semelhantes e nem competir com eles. Quem sabe, lá, será costume partilhar as coisas...
Se temos muito dinheiro e não vamos mesmo levá-lo, faz-se urgente reconhecer e liquidar aqueles débitos nunca saldados. Pelo menos para nossa paz de consciência.
Já que nossa soberba não terá nenhuma serventia neste mundo que vai acabar, vamos dar um alô para aqueles que temos magoado e ofendido e pedir-lhes que nos perdoem - não só por palavras, mas movidos por verdadeiro sentimento - tomando a mesma atitude na recíproca, pois será melhor não carregarmos para o outro lado esse fardo.
Se temos pago mal nossos ajudantes, por pura ganância de nos sobrar mais, vamos tratar de resgatar isto agora, se possível, ou no mínimo reconhecer que eles têm sido grandes alavancas do nosso enriquecimento; e eles, de sua vez, que se lembrem de que, mesmo em tais circunstâncias, o lugar onde trabalham lhes tem dado o sustento. Sair deste mundo carregando esses não-reconhecimentos pode nos dificultar o acesso nesse lugar novo para onde seremos enviados, pois poderão pedir nossa ficha...
Não sabemos em que condições físicas iremos chegar lá, então vamos olhar bem para os nossos semelhantes, companheiros de milenares jornadas, e ver que somos belos e tão iguais, e que formamos uma grande fraternidade. Quem sabe nesse lugar para onde iremos seja hábito cultuar o amor e a solidariedade, e como faremos se não temos exercitado com muita frequência essas práticas?
Já que não teremos mais nada a perder, vamos aproveitar para fazer coisas ousadas - que sejam boas, naturalmente - só para experimentar nosso potencial, pois se outros conseguiram, com certeza nós também o faremos!
E se, depois de tudo isto, o mundo não acabar, nós o teremos deixado tão lindo e maravilhoso e tão bom de se viver que não quereremos que volte ao que era!
- WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina





