Os milagres se operam pelo poder da fé, e esse poder é do homem e a ele inerente por dádiva divina. Quando o homem aciona essa força, que emana de dentro dele, vai ao encontro das energias coerentes que estão no éter universal, e então os fenômenos se manifestam. Às vezes nada acontece, porque a força da fé não foi suficiente, da mesma forma que, no nosso sistema convencional de energia elétrica, uma corrente fraca não consegue mover o dínamo.
Onde entra aí o poder dos santos? Eles são intercedentes, como quem estende a mão ao que está fazendo força para subir. As vontades idênticas então se unem, porque a fé do devoto entra na mesma consonância da energia da divindade. Não é o santo que faz o milagre, mas a fé do suplicante, que uma vez acionada entra no campo vibratório comum a todos os santos.
Quando se diz que alguém foi merecedor de uma graça, significa que procedeu da forma correta ao pedi-la, por isso a mereceu, e não porque seja uma boa pessoa, eis que as benesses divinas são concedidas também aos denominados homens maus. Um delinquente pode obter uma graça, pela intensidade do poder de sua fé, enquanto um beato às vezes não.
Por estes dias o Brasil vive a emoção de ver canonizada uma brasileira como santa, pelos fundamentos da Igreja Católica. Essa corrente emocional em cadeia pode produzir muitos milagres, e a santa será a razão, portanto um forte agente. Mas a santa não poderá fazer sozinha o milagre, pois interferiria no livre arbítrio alheio se isso não fosse da vontade de cada um.
Jesus fazia milagres – como os episódios de caminhar sobre as águas ou a multiplicação dos pães – mas não curava enfermos sem que lhe pedissem, e assim mesmo perguntava se a pessoa queria mesmo ser curada. E, diante do milagre, o que dizia ele? Dizia ‘‘a tua fé te curou’’. Porque, também aí, ele não podia ingerir na livre vontade de outrem. Se é do desejo de alguém permanecer cego, ninguém deve contrariar essa decisão, pois seria interromper um propósito.
É certo que o evento da consagração de uma santa brasileira – embora não sejam as igrejas que produzam um santo ou possam impedir que o seja – pode gerar uma corrente de fé muito poderosa, num momento de certa depressão nacional, pela situação vigorante de desemprego e insegurança dos cidadãos.
Os católicos conhecem a história da Santa de Guadalupe, hoje padroeira do México e da América Latina. Ela teria de manifestar sua aparição e produzir o milagre de fazer estampar-se sua imagem, pela ‘‘tinta’’ das rosas, no manto do indiozinho Diego. Porque era um tempo de profundo abalo nas esperanças do povo mexicano, tangido naquela época por grande pobreza e desalento.
Quem vai ao México pode ver esse manto, indiscutivelmente um mistério à luz do conhecimento humano. Os milagres da aparição da santa e da gravura no manto aconteceram para restabelecer a fé e a esperança daquela gente, que até hoje tem na Senhora de Guadalupe a sua grande guia. Dizer que ela foi a salvadora dos mexicanos seria uma inverdade, porque foram os mexicanos que se reencontraram, pelo poder da fé e da crença, o que ocorreu, sim, por via da mão divina representada por aqueles milagres.
O advento da Madre Paulina santa poderá reacender a vontade, a fé e a esperança no seio dos 125 milhões de brasileiros católicos, e isso significará uma poderosa alavanca para restabelecer o ânimo da nação inteira. O mérito será dos devotos. E da santa. O dedo de Deus sabe como, onde e quando agir.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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