Quero ser um poeta/ Quero ser um Capucho/ Mas a razão me alerta: deixa de luxo/ Um Nilson Monteiro/ Mas qual, se sou de Meleiro/ Um Dom Pelegrini/ Quimeras, sou só Macarini.
Hoje à noite, na Biblioteca Pública de Londrina, o poeta Nelson Capucho nos apresenta o seu jardineiro de flores estranhas. Vou lá conhece-lo. E ver o que há de estranho em suas flores e o que elas têm a declarar.
Capucho é profundo demais para o meu entendimento. Não saberia avaliá-lo, e nem desejo. Dizer que achei legal seria hipócrita, pois não saberia distinguir, de seus poemas, o que é legal ou deixe de ser; se disser que não gostei seria presunção, pois para gostar ou não eu teria de submeter meus gostos a parâmetros que desconheço. Não sou erudito a tal ponto. E pedir explicações ao poeta seria manifestar ignorância, e para isso falta-me a modéstia. Poetas e poemas não se explicam.
Só sei que Capucho pensa em outra dimensão. E isso me conforta, porque ao menos encontro a resposta para o meu não entender. Sei que ele não é desses poetas tristes. Seus poemas não estão na medida do triste ou do alegre. Antes, entre os poemas loucos. Mas poemas loucos existem? Uma resposta exata exigiria que, primeiro, penetrássemos na alma do poeta.
Às vezes penso que os normais são os loucos. E que loucura não é coisa de louco. Poemas tristes, melhor não lê-los nem ouvi-los. Já poemas loucos são instigantes.
Por que os poetas normais falam tanto de mágoas e dores e de perdidos amores? E poemas com rimas, são necessários? Já os meus, não têm pé nem cabeça, por isso não andam nem pensam, mas têm asas e voam.
Os poetas loucos são necessários. No nada entender de sua linguagem reside o entendimento. O nada com nenhum compromisso, o compromisso com o nada, o nada absoluto que se faz tudo. Entender não é preciso, porque está subentendido. Para penetrar na profundeza do indecifrável há que não entender, e assim tudo se faz entendimento.
Loucos dizem coisas sábias. Mais difícil é esperar isso dos normais. Os normais dizem coisas práticas. Os loucos dizem coisas incompreendidas, que só loucos iguais compreendem. Os normais colhem flores, decepam-lhes os caules e decretam-lhes a morte. Mas antes que morram, as comercializam. Os loucos as contemplam, conversam com elas. Coisa, mesmo, de loucos.
(Deveria haver uma lei determinando que rosas e todas as flores só sejam comercializadas em vasos, de forma a que sobrevivam ou possam ser replantadas, e que condená-las a morrer por corte fosse considerado crime ecológico. Mas para isso seriam necessários legisladores loucos).
São os normais que cometem grandes loucuras. Como as guerras, a destruição do meio em que vivem, o jugo a que submetem os seus iguais. Loucos não fazem essas coisas. Por isso os loucos são indispensáveis.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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