Nos domínios do futebol


Sempre fui um entendido em bola. Porque as confeccionava. E porque, para testar a qualidade delas, fui ser goleiro - um dever de ofício - para assim melhor estudá-las, com as mãos e com o pés, que é um privilégio só reservado a quem joga naquela posição.
Eu fazia bolas porque fui seleiro, dos 8 aos 16 anos. Meu pai era seleiro e tinha um irmão seleiro, e meus irmãos também viraram seleiros, ao menos no período da adolescência.
Mas a pós-graduação em selaria não é fazer uma bola e sim uma sela, que é a peça mais importante da encilha. Se você erra um centímetro a conformação dos bastos, fere o dorso do cavalo, que corcoveia e pode lançar ao chão o cavaleiro. Afora a judiação do animal.
O destino me afastaria dessa arte e também do futebol. O Paraná convocava catarinenses para outras missões, aqui. Tivemos que emprestar nossa solidariedade. Pois o que sobra num catarinense é talento e modéstia. Virei jornalista, mas a selaria e o futebol perderam.
Fazer uma bola não é difícil, depois que se aprende. Quando dizem que Pelé entende tudo de bola, coloco minhas dúvidas, porque nem ele e nem ninguém dos que agora me lêem podem explicar como se fecha uma bola, se a costura dos gomos é por dentro...
Inspira-me hoje falar dessas coisas porque vou no embalo da leitura que acabo de fazer do livro recém-lançado ‘‘Onze Contra Onze’’, do narrador esportivo londrinense J.Mateus.
Conheço uma bola por dentro e por fora. Travei com ela muita intimidade e por isso eu sabia acariciá-la e segurá-la bem com as mãos, e ela como que sentia-se atraída e caía direitinha nos meus braços, para desespero dos atacantes adversários.
Era em Meleiro, meu chão natal, terra de muitos craques em frentes diversas. Um lugar que está pouco destacado no mapa, mas não precisa, eis que todos os que moram lá conhecem.
Um dia o glorioso Estrela do Sul - eu de goleiro - foi jogar com o time dos seminaristas de Turvo, ali perto, e que era o devorador naquela vasta região do extremo sul catarinense, encravada entre o mar e o costão da serra.
Era, para nós, desses jogos de cumprir tabela, e os companheiros temiam uma goleada. Jogo correndo, foram contados, por testemunhas ainda vivas, 180 chutes contra a minha meta, em média um a cada trinta segundos. Incluindo pênaltis.
Era só bola que zunia, a velocidades medidas de até 220 km/hora. Qual sopro de minuano, aquele vento uivante que só acontece nas paragens sulinas e que vai varrendo poeira e touceiras de vegetação seca, obrigando a fechar portas e janelas. Como eu ali, fechando o gol. De arrepiar.
O jogo terminou zero a zero.
J.Mateus só esqueceu de narrar em seu livro esse histórico evento.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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