Carma se traduz por lei de causa e efeito. Ou seja, do que fazemos, colhemos um resultado. Um carma não é uma punição e nem um prêmio. É uma consequência. Mas costumou-se considerá-lo uma obrigação a cumprir, um predeterminismo, um peso que temos de carregar. Não é bem assim, mas quase isso se entendermos que nós mesmos traçamos nosso projeto antes de vir para cá.
Cada vinda visa a continuidade de um plano, ou um plano novo, que se concretiza ou não, de acordo com o que fizermos ou deixarmos de fazer. Um carma pode ser uma repetição, uma nova tentativa, porém nunca um castigo e sim uma decisão do livre arbítrio de cada um. Em sânscrito, dá-se a isso o nome de roda de samsara – ou o ciclo de muitas vidas repetidas inutilmente, por efeito das mesmas causas.
Não fomos nem somos empurrados para cá por uma mão punidora, mas atraídos pela tarefa que nos propusemos executar e concluir. Imaginemos um trabalho voluntário que resolvermos empreender em alguma região carente de nosso País ou outra parte do mundo. Fazemos isso por livre vontade, e se a missão que nos propusemos cumprir não der certo da forma que poderíamos ter feito, iremos sentir uma natural inquietude e um desejo de lá voltar e terminar o que não foi concluído.
Assim é nossa vida. Estamos aqui como voluntários, em missão de doação ou por simples experimento. A tarefa inconclusa é que nos mantém no círculo de samsara. Por isso, importa muito compreender o sentido de estarmos aqui. Pode ocorrer de, nessa jornada, nos desviarmos e criarmos carmas novos e, assim, nos atrasarmos na caminhada. Imcumbe, pois, evitá-los e, ao contrário, ir deletando os que temos.
É prudente não arranjar mais ônus por aqui – e eles se caracterizam pela via de mentiras, enganações, logros, agressões, maledicências e danos a nós e a outrem. O tempo vai se esgotando e corremos o risco de ter de recuar para um ponto de recomeço. Já passamos por isso muitas vezes, e muitos de nós já não deveríamos mais estar aqui. Porque, embora possamos fazer desta morada temporária um paraíso, aqui ainda não é esse lugar de plenitude.
O homem tem dentro de si a consciência de sua ligação com o transcendente, e tal independe de lhe haverem dito ou ensinado. O processo da vida e da morte física não nos afasta das vivências e coisas terrenais, se estivermos apegados demais a elas.
É tempo de não arranjarmos mais complicações que nos detenham aqui por mais tempo que o necesário, ou nos façam regredir. Se estamos quase prontos para alçar vôo mais alto, não podemos carregar penduricalhos que nos dificultem a decolagem. Subimos ou nos afundamos de acordo com nossa leveza. Os nossos fardos, estes teremos nós mesmos que carregá-los. Então, é melhor não criá-los, isto significando não assumir novos débitos, na forma das maldades nossas de cada dia – grandes, médias e pequenas – uma droga em que temos nos viciado e que nos corrói. Temos pouco tempo mas ainda é tempo.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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