A reedição do que já foi


Nada é direito autoral de ninguém, porque ninguém criou nem inventou nada. Fala-se de criações do homem, mas apenas porque não há outra forma de dizê-lo. Não há inventores, mas homens que captam as idéias que já estão no éter, alguns mais facilmente que outros, segundo as suas aptidões e a sua sintonia com cada coisa. Também não há gênios, há captadores de genialidades.
Tudo o que existe sobre a Terra o homem já conheceu num passado que se perde na bruma dos tempos. Ele apenas vem extraindo coisas do baú de sua memória remota e trazendo-as novamente à luz. O que é classificado de moderno, hoje, o homem já experimentou outrora, e de forma muito melhor. A tevê, o computador, a internet, a telefonia celular, as viagens espaciais, são coisas ainda rudimentares, diria-se primitivas. Tudo o que aí está é obsoleto. E o que virá imediatamente após o agora, também já é velho.
A humanidade conheceu coisas mais avançadas do que as que hoje dispõe, e aos poucos irá buscando de volta o que já foi de seu domínio. A cada dia retoma o que já experienciou, embora disso não tenha consciência. A clonagem, a transgenia, são repetições do que o homem já dominou com maestria. Porque cada um de nós não é de agora. As lendas não são meras lendas.
Os antepassados somos nós mesmos. Já fomos tão numerosos na Terra quanto somos hoje. As sombras do tempo encobriram tudo, mas a memória superior do homem guarda todos os caracteres e os vai repassando à memória física. A causa da hecatombe foi o homem não haver associado à tecnologia o necessário avanço espiritual, por isso entrou em conflito e ele próprio possibilitou a desintegração de todas as coisas. Um grande esquecimento operou-se em seus sentidos mas seu ‘‘disco rígido’’ conserva os registros.
Tudo então, devagar mas persistentemente, irá ressurgindo. Nada, portanto, é novo e nada é criação de ninguém, embora tudo se opere através do mesmo homem terreno e tudo o surpreenda. As coisas que vão acontecendo não são mais que redescobertas. Aqueles que ao longo dos milênios se dedicaram a determinadas artes e ofícios, que se aprofundaram em certos estudos e ciências, são os mais aptos a captar e a dar forma àquilo que dominaram outrora.
Einstein nunca soube explicar como reencontrou a sua teoria da relatividade. O descobridor do transistor – fato relativamente novo para a humanidade atual e que deu sustentação ao computador – nem pôde explicar direito como o milagre dessa (re)descoberta se operou. Thomas Edson já tinha dentro dele a lâmpada, mas por centenas de vezes experimentou e reexperimentou, até que tocou no ponto que sua memória antecedente e transcendente já conhecia.
A sabedoria suprema não ‘‘perde tempo’’ confiando uma tarefa a quem não tem intimidade com ela. Os afins captam coisas afins e estas identificam os que as buscam. Adventos de novas e insidiosas doenças, e as respectivas curas, são repetições. O encontro da cura será a derradeira repetição, a menos que o ser humano provoque nova hecatombe e faça tudo desintegrar-se outra vez.
Nada é novo sob o sol, embora os olhos da humanidade se surpreendam com o que revêem. O homem já conheceu além da tecnologia que hoje domina. E agora, na velocidade com que as janelas se abrem para a visão do que já foi, mais rapidamente tudo irá acontecendo. Nada fere nenhuma lei divina, porque tudo o que é e está sendo, e o que ainda virá a ser, já está feito. O homem está apenas revisitando velhas prateleiras e retirando de lá fantásticas arqueologias, que são ao mesmo tempo coisas do passado, do presente e do futuro.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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