O querer é uma impulsão, uma obstinação, um poder, que não enxerga obstáculos. Não deve ser propriamente um projeto, porque tal agrega variáveis contrárias, eis que num planejamento costuma-se considerar prós e contras. O querer não pode ter componentes analíticos, ou não terá poder. O querer verdadeiro é puro, cristalino, uma auto-propulsão natural, tão espontânea quanto o ato de respirar. Se começarmos a medir o ritmo respiratório podemos entrar em pânico e morrer sufocados...
Querer determinada coisa (ou o nada querer, que também é uma forma de querença) é como um atributo genético. O querer convicto não cogita de contrariedades, eis que não tem registro delas. Se fazemos um projeto e adicionamos variáveis contrárias, a pretexto de medida acauteladora, corremos o risco de ver tal projeto não dar certo ou triunfarem justamente as variáveis contrárias, eis que as admitimos como possíveis. Se acrescentamos uma pitada de vinagre na água, sentiremos inevitavelmente o sabor.
Não se deve planejar muito o querer, porque planejamento considera oponentes, e eles são figuras negativas no processo. Se a pessoa, mesmo sem dinheiro, quer um automóvel, porque isso é algo arraigado nela, com toda certeza o terá, porque está sempre se vendo dentro de um, dirigindo-o, imaginando-o em sua garagem; identifica o modelo que quer e assim passa a vê-lo em toda parte – nas ruas, na vitrina da loja. O que a pessoa deseja, ela vê e identifica-se com essa coisa, da mesma forma que uma mulher grávida enxerga todas as grávidas que passam, muito mais rapidamente do que as outras pessoas enxergam, ou nem enxergam.
Quando temos fixada uma coisa, a incorporamos. Ocorre que quando temos na mente um carro – que pode ser um zero quilômetro, lustroso – nada nos afasta dele, e essa impulsão nos levará a encontrar o meio de obtê-lo. E quem busca, acha, porque atrai esse objeto buscado, e o objeto como que se sente atraído por quem o deseja. O mal é que, no mais das vezes, a pessoa almeja determinada coisa – que pode ser um bem não-material – mas interpõe contrariedades, e assim, a par com a vontade, adiciona a contraposição de que não tem condições. Arma uma barreira, que impedirá o avanço.
A lei do querer/poder funciona, e se o querer não é tão convicto e forte, ocorre de às vezes o que se pediu demorar, e quando afinal chega a pessoa já nem mais se lembra de haver desejado aquilo e talvez nem mais o queira. Mas o fato é que a roda continuou girando, completou o ciclo e o resultado manifestou-se.
Só querer com palavras não leva a lugar algum, e aí as pessoas dizem não acreditar nessa coisa de que querer é poder. Só palavras jogadas ao vento aleatoriamente não significam um poder. Quando o querer é uma força incontida que vem de dentro, desenrola-se uma busca constante e até imperceptível dos mecanismos que levam à concretização do que se quer. O querer/poder não conhece a inveja sobre quem está buscando ou obtendo a mesma coisa. Pessoas que se sagram vitoriosas são as que ficam felizes com a vitória dos outros, porque encontram neles o seu protótipo, o seu alter ego.
Querer é um estado de espírito. O querer é sempre uma conquista individual, pois não se pode querer pelos outros. É certo que uma mobilização do inconsciente coletivo pode deslocar forças poderosas, mas este é outro capítulo. Se prestarmos atenção à nossa vida veremos que aquilo que realmente queríamos e sobre o qual nunca colocamos obstáculos, nós conseguimos, se não totalmente ao menos em parte ou em variantes idênticas. Acontece que no mais das vezes nem nos tocamos disso. Querer é um estado de fé. Este o sentido da alegoria de que a fé move montanhas.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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