Quando a mulher ama o homem e ele é gordo, ela justifica que é um problema glandular e que ele, coitado, sofre muito com isso; que ele é assim mas é um fofo. Se não o ama, diz que é um relapso, que não se cuida e não se gosta – bem que ele poderia fazer uma cirurgia do estômago, frequentar uma academia!
Se a mulher ama o homem e ele se veste mal, ela diz que ele é assim mesmo, uma pessoa simples, sem vaidade, e que suas virtudes são outras, que ela admira muito mais. Mas se não ama, diz que ele é um desajeitado, que de nada adianta ser ótimo em outras coisas se anda assim tão deselegante – pô, não dá nem ânimo de eu me arrumar e sair com ele!
Se o homem anda bem vestido e a mulher o ama, ela afirma que ele é refinado e tem muito bom gosto, que é bom estar com ele e um prazer cuidar da sua roupa e ir com ele para todos os lugares. Mas se não o ama, diz que ele é todo almofadinha, cheio de frescuras – não sei não...
Se o homem é grosseiro mas a mulher o ama, ela vai ficando meio com o jeito dele, defende-o e proclama que ele é objetivo, forte e decidido. Se não o ama, diz que é um sujeito mal-educado, que não teve berço e ela nem imagina quem da família ele puxou – deve ser aquela mãe dele, que ainda acha bonito tudo o que ele faz! Se o homem é delicado e a mulher o ama, exalta que ele é um cara fino, um perfeito cavalheiro e que está acima das questões banais. Mas se não o ama, diz que é um molóide, todo cheio de delicadezas, um bundão.
Se o homem não usa desodorante mas a mulher o ama, diz que ele é naturalista, autêntico, tem cheiro de macho. Mas se não o ama, declara que é um bicho do mato, sem refinamento algum e que cheira a bode. Se ele é todo perfumado e ela gosta do homem, suspira que ele parece um jardim ambulante e que por onde passa vai deixando um rastro de fragrância. Se não o ama, desdenha que ele é todo madame, pensa que a vida se resume em água de cheiro – e aquele perfume ainda fica no travesseiro, qualquer dia vai me dar uma coriza!
Se o homem palita os dentes à mesa e ela o ama, diz que respeita os seus modos e não vai repreendê-lo por isso, que o conheceu assim, não vai mudá-lo e o aceita do jeito que é. Mas se não o ama, sente-se mal e manifesta isso abertamente – credo, que homem mais sem classe! Se ela o ama, fica solidária com ele e palita junto, com uma mão segurando o palito e a outra tapando a boca. Coitado, é problema dentário – ela justifica.
Se o homem é culto e a mulher o ama, aceita todos os eventuais defeitos que ele tenha, como os cabelos em desalinho, barba por fazer, calça, camisa, sapato e meia nada combinando com nada, e por cima aquele cheiro de pouco banho. Mas se não o ama, o que adianta ser ilustrado, metido a intelectual, mas pobretão? – isso não enche barriga de ninguém! Não adianta querer salvar o mundo. Mas se ela o ama, diz que baba quando ele defende suas idéias e que mais vale uma boa cabeça do que tantos adereços, como desses homens vazios que podem até ter dinheiro, mas não têm substância...
Se o homem é feio mas a mulher o ama, ela proclama aquelas frases das nossas tias-avós, de que beleza não põe mesa, que quem ama o feio, bonito lhe parece. Mas se não o ama, fica arranjando discussões com ele o tempo todo, humilha-o, coloca-o sempre em segundo plano e implica com tudo o que o pobre faz. Se ela o ama, não vê sua feiura e contrapõe que é um homem tão bom e que sua beleza é interior...
Se é um homem caridoso e a mulher o ama, fala que ele é uma santa pessoa, capaz de despir a própria camisa para cobrir um necessitado. Mas se não o ama, diz que ele está querendo aparecer, dar uma de bonzinho, quem sabe permutando isso por um lugar no céu – devia é olhar mais para os filhos e a família, isto sim!
Se o homem é um bom profissional e a mulher o ama, diz que ele é um perfeccionista e exalta tanto as suas qualidades a ponto de tornar-se chata. Mas se não o ama, tacha-o de obcecado, que faz tudo certinho, mas é honesto demais para o gosto dela – melhor se ele cuidasse de ganhar mais dinheiro!
Se o homem é rico e a mulher o ama, ela economiza com ele, e por mais que ele seja generoso, ela assim mesmo zela pelo patrimônio comum, exalta o homem como uma pessoa de sucesso, que subiu na vida pelos próprios méritos e que por isso ela é a mulher mais feliz do mundo. Mas se não o ama, vive alfinetando-o, gasta o quanto pode e está sempre achando que ainda não é o bastante, que ele é um unha-de-fome – se fosse uma amante ele que ia ver quanto ela (a amante) ia tomar dele! Que ela (a mulher) merece muito mais do que ele lhe dá, pela mulher que ela é e por tudo que faz por ele!
Se o homem é bom, culto, bonito, refinado, elegante, tudo em cima, e a mulher o ama, ele é simplesmente um deus. Mas se, mesmo assim, não o ama – e há casos – ela não enxerga nenhum desses atributos e só quem enxerga são as outras. Ela diz que preferia um tipo menos espetaculoso, mais original, mais tudo, menos aquilo. Ela mesma nem sabe bem o que quer, mas esse homem é perfeito demais para o seu gosto.
Enfim, resumindo: se a mulher lhe põe defeitos, é simplesmente porque não o ama. Se você a ama e acha que está bom assim, vá em frente. Se não, saia em busca daquela que o admira e o acha lindo e maravilhoso. Você poderá não ser feliz, mas viverá em paz. De qualquer forma, não se moleste com nada. Você é perfeito para alguém, e está na parada!
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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