Walmor Macarini
Quando eu era adolescente em Santa Catarina, tinha vergonha de ser descendente de italianos, porque as meninas as belas nativas de pele amorenada e as do nosso próprio grupo étnico nos chamavam de polenteiros. Que soava como sinônimo de troncudo e de gestos pouco solenes. Não era à toa se é que esse fosse o mal porque comia-se polenta de manhã, de tarde e de noite. E nos intervalos. Força de expressão, porque de noite era menestra. Com polenta. Torrada na chapa. E mais salame frito feito em casa e toletes de queijo, que eram colocados antes, no fundo do prato, para a menestra quente ir derretendo.
Menestra não se encontra no dicionário. Só em casa de italiano. É um composto de feijão cozido, esmagado e depois recozido com arroz. Uma espécie de sopa, muito nutritiva, com tempero à base de alho, toucinho e cebolinha fritos no azeite ou em banha de porco. O aroma se sentia de longe, sempre por volta das 6 da tarde, quando as igrejas soavam os sinos da Ave Maria. Som e sabor se propagavam por léguas naquela imensurável colônia de imigrantes.
Em minha adolescência só aprendi português na escola, porque todos só falavam o italiano. O padre invariavelmente era italiano, desses importados da Itália, porque os padres brasileiros eram escassos, e a missa rezada em latim. Fui coroinha e batedor de sino. Depois briguei com o padre porque ele queria roubar uma das minhas namoradas (essa, contrariando meus gostos habituais, e a bem da verdade histórica porque este causo já foi contado era uma loira e nem italiana, mas alemã, de olhos azuis).
Como todos falavam italiano, também os brasileiros não descendentes aprenderam a falar a língua. E a comer polenta e menestra. Não havia rivalidade e todos se gostavam. Mas italiano á homem e mulher não devia casar com brasileiro, recomendavam os velhos. Algo que soava racista, mas o argumento era de que havia diferenças de costumes. Bobagem, porque na intimidade, com pouca conversa, todos se entendiam bem...
De noite ia-se às novenas e era bom porque depois, com a alma salva, sempre tinha um bailinho. Era melhor a dança que a novena. Os adolescentes também dançavam. Dançava-se, cantava-se e comia-se bastante. Os velhos bebiam vinho. Os adolescentes só tinham o direito de beber dois copos, mas com bom comportamento podiam beber três. E a partir daí ninguém tinha mais controle...
Era um povo contente, que trabalhava muito e, de sábado a partir do meio-dia até domingo de tardinha, entregava-se à farra. Não era pecado farrear e por isso farreava-se à vontade. Às vezes o padre estava junto. E se ele estava, havia a aprovação de Deus. Devia ser verdade, porque até prova em contrário os que morreram foram todos para o Céu. Mas, por fortes que fossem e vivendo vida tão boa, morreram todos moços os meus parentes. Quando chegavam aos 95 anos, morriam.
Muita coisa boa eu aprendi com meu avô Pascual, homem de poucas letras para não dizer analfabeto porém sábio. Fez muitos amigos, mas morreu com a tristeza de nenhum dos seus compadres e velhos companheiros tê-lo visitado nos derradeiros dias, nem comparecido ao seu enterro. É que todos tinham morrido antes...
Vivi em meio a vinte tios e tias, muito dedicados e bons com os sobrinhos, e quando eles se casaram, viraram quarenta. (Por isso, aproveitando a ocasião, recomendo a quem for tio que seja amoroso com os sobrinhos pequenos e adolescentes, porque isso eles nunca mais esquecerão.) Minha mãe e meu pai ensinavam que não havia necessidade de ser desonesto. Lição que a gente nunca aprende por inteiro, porque esse mal se manifesta em nós de muitas formas e no mais das vezes nem percebemos.
Mulher bonita não faltava. Altas, fortes, bem fornidas, pele rosada como de pêssego maduro. Algumas de olhos azuis. Italianas e impetuosas. Mas sem o dengo das marronzinhas. Era ali onde eu amarrava o burro. Eram poucas, e nesse arraial eu não encontrava muitos concorrentes, pois eles eram mais enrabichados nas italianas. Por isso ganhei fama de ser chegado nas marrons. Sem culpa, mesmo porque nisso não há culpa, antes uma virtude. Apenas uma questão de gosto e de hábito. E tudo dentro do maior respeito, como as pessoas bem comportadas costumam dizer.
Só vim embora porque um dia João Milanez passou montado em seu baio, no rumo de Londrina, e me ofereceu garupa. Ficaram lá as marronzinhas. Com toda certeza saudosas. Delas nunca mais tive notícias. Saí com o coração partido e olhando para trás, até desaparecer na primeira curva da estrada.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina





