Quando Sócrates mandou afixar na entrada do templo de Delfos a frase ‘‘Conhece-te a ti mesmo’’ não se referia ao conhecimento que o homem deve ter acerca de suas vontades, prazeres, rejeições, apegos, fraquezas, virtudes, as suas idiosincrasias, mas ao que ele é em sua dimensão maior, despojado da fisicalidade terrena, e o que ele não consegue imaginar mas que, no entanto, é o seu verdadeiro ser - o universal que se acha contido no particular.
Porque o corpo físico que ele vê refletido no espelho não é a sua realidade e de forma alguma a sua totalidade. Nem chega a compor uma partícula sequer do que ele verdadeiramente é, porque o que vê é perecível e não terá desdobramento além de converter-se em pó da terra. O que as suas vistas enxergam em si próprio é a ilusão; já o que não vêem, isto é a realidade.
Tal não invalida que o homem cuide do corpo físico enquanto alimentado pelo espírito que o envolve, porque tem com ele uma obrigação e deve zelar pela sua integridade, uma vez que o corpo é o agente que possibilita ao espírito a oportunidade do experimento terreno.
O homem compõe Deus e tem autoridade divina, por isso nada deve temer. Deus não o punirá por nada, pois isso significaria desaprovar a si próprio e auto-punir-se. Contrariar a lei é, portanto, o homem negar o poder que é inerente à sua essência e à sua realidade imutável e indestrutível. A salvação, de que se fala, é conhecer esta verdade, e por conhecê-la tornar-se livre.
O homem qualifica-se de insignificante e apartado, supondo ele aqui e Deus lá no Céu, portanto muito distante, e como tal ele (homem) imaginando necessitar de alguma divindade que salve a sua alma, porque a supõe pecadora. Mas seu substrato mais refinado, que é a argamassa divina de que se compõe – o seu atma – não sofre nenhum abalo. Apenas aguarda o momento de empreender outros vôos e outros experimentos e a mais doar-se em novas missões.
Cada ser é múltiplo em sua forma e tem dimensão cósmica e imensurável. Difícil ao corpo carnal entender isso em sua limitação tridimensional, mas a sua totalidade superior entende. Seria como uma potente emissora que não conseguisse manifestar a sua voz num rádio frágil ou com defeito. O pequeno aparelho seria a extensão da emissora projetada em outra dimensão. Ou como a usina e a lâmpada, esta uma das manifestações da usina.
Assim é a manifestação corpórea do indivíduo em relação à grande usina cósmica a que o homem deu o nome de Deus – a Suprema Fonte, que não se consubstancia num ser, como é imaginado pelas gravuras sacras ou pelo simbolismo das descrições bíblicas, nas na grande unicidade universal.
O homem não precisa sofrer e tem direito à busca da felicidade e de todos os prazeres. A solidariedade fará mais amena a sua missão – ou experienciação ou doação – por estas paragens. Somos passageiros únicos nesta nave chamada Terra, que vista do espaço distante – como a viram os cosmonautas – parece perdida no espaço e até difícil de localizar. E nós brigando a bordo, ao invés de nos confraternizarmos pelo heroísmo desta jornada que, antes de vir para cá, planejamos executar e estamos executando juntos.
Deve o homem saber que seu poder não está na força física nem no que ele acumula de informações em seu cérebro, mas emana de outra fonte, muito mais poderosa e de dimensões nem sequer imaginadas. Que fique atento, pois, à sua intuição, que são aqueles lampejos de clarividência que se manifestam a todo instante e que são a voz da sua parte mais elevada: a usina gigante que dispõe sua força, mas da qual, no mais da vezes, o homem desconecta a sua tomada, e aí imagina-se fraco; ou a emissora potente que envia a sua mensagem mas que, por descuido e desmazelo, o homem deixa de captar.
O Reino não é o vivido nesta vida terrena, embora se possa fazê-lo maravilhoso também aqui. É necessário que o homem saiba o que quer para si, mas antes de tudo é fundamental conhecer-se a si mesmo e saber o que ele é. E ele é simplesmente dotado de poder divino, sem risco de qualquer dano à sua essência, enfim a sua alma. Esta, então, já é salva por sua própria origem, porque um pedaço de Deus, e Deus não está submetido a qualquer perigo. Tem o homem, portanto, o poder de Deus. E assim pode viver a felicidade e a paz espiritual, mesmo em meio a turbulências.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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