Walmor Macarini
Sofrer não é preciso
O homem tem uma tendência de se dar bem com o sofrimento e não com as coisas boas e aparentemente miraculosas que lhe acontecem. Não se julga merecedor de certas benesses, por isso assume um comportamento de rejeição. Então as afasta e assim dá espaço para que entrem as negatividades. Diante de uma revelação que extrapole o normal ou de um fato bom demais, considera-os não verdadeiros, ou no mínimo mantem-se em alerta, tendendo a não crer. As religiões predominantes também reagem a esses fatos e buscam manter a prevalência das idéias inversas. Dão importância ao sofrimento, porque apregoam a suprema glória só será conseguida pela via mais dolorosa e não pela das alegrias terrenas.
Assim, o homem é ensinado a crer que os males que lhe ocorrem são vontade divina; já os bens, estes são coisas da tentação... Por esse prisma, Deus é o algoz, mas em troca lhe dará o paraíso, desde que ele for justo e aceite o sofrimento com resignação; já satanás acena com as coisas boas, mas depois irá deleitar-se com a ardência de seus beneficiários no caldeirão do inferno... Depara-se o homem, então, diante de dois punidores, aliados quanto aos propósitos, pois Deus pode mandar o ímpio para o inferno e o diabo lhe agradecerá por isso. É assim que as igrejas tradicionais ensinam aos seus fiéis, desde a infância, e os pobres mortais atravessam a vida nesse clima de terror, e infelizes.
O homem acostumado a admitir o sofrimento nem crê que algo especial lhe aconteça, pois supõe que isso possa representar um débito para com a vida, quando, ao contrário, é uma simples dádiva. - Eu não acredito! exclama, quando tal ocorre, e esta é uma exclamação negativa. Já diante de algo ruim, ele acredita. Deseja o dinheiro, que poderá lhe dar a felicidade imaginada, mas algo dentro dele lhe diz que isto pode ser pecado, porque ensinaram-lhe que a virtude reside na pobreza. Nesse conflito a riqueza não encontra abrigo e vai bater em outra freguesia.
Há uma predileção do homem por considerar-se pecador, indigno das alegrias terrenas, porque elas só estariam no Céu, e assim mesmo para o justo, pois lhe disseram que é assim que funciona. As igrejas codificaram todos os regulamentos que afirmam serem de Deus, e os fiéis os seguem, sem questionar muito, pois do contrário podem sofrer não apenas a excomungação de sua comunidade religiosa mas ser rejeitado no paraíso e, muito pior, lançado nas chamas eternas...
Dizem-lhe que tem de ser justo, e ele entende que isto significa cumprir certos deveres, não prevaricar, não roubar, não matar. Difícil definir o que é ser justo sem incorrer no risco de equívoco, mas o indicativo mais próximo aponta para o homem centrado na convergência de si mesmo e que sabe o que ele mesmo é; ou, em outras palavras, ajustado a si próprio na sua relação com a vida e com a eternidade.
Ensinaram-lhe que felicidade só se obtém pelo sofrimento e que ela não pode ser vivida aqui e agora; que se alguém está rodeado de riqueza, aí está interagindo alguma força do mal. E assim, quanto mais o homem se afunda nessas crenças, mais infeliz vive. Incutem-lhe que tem de ser temente a Deus e assim ele o imagina um ser supremo capaz de irar-se.
Certamente que Deus não contemplará o sofredor só pelo fato de que sofre. O sofrimento pode ensinar o homem a descobrir porque está sofrendo e, quem sabe, indicar-lhe o caminho que o tire dessa dor. Mas não o levará ao Céu apenas por isso, assim como a alegria e os deleites da vida não o conduzirão ao apregoado fogo do inferno.
As armadilhas de sua existência é o próprio homem quem monta, e o sofrimento é o resultado desse seu livre arbítrio. Ele também não terá uma cota de recompensa no paraíso apenas pelas boas ações calculadamente praticadas. O que ocorre é que, ao fazer algo agradável para si ou para outrem essas coisas que lhe brotam de dentro a ponto de que nem ele mesmo o perceba o ser já está num estado de graça, e se continuar assim tal leveza o fará elevar-se aos arcanos... Esta a recompensa final, que de qualquer maneira é um bem assegurado. Uns a alcançarão mais cedo, outros mais tarde, dependendo dos retardos pelo caminho.
E o que é uma boa ação? É fazer algo não por suposta obrigação mas porque agrade fazer. Se não houver a impulsão dessa vontade, melhor é aguardar outro momento, quando isto se manifestar livremente. O sentimento, acima da pré-avaliação do fazer ou não fazer, brota espontâneo, imperceptível. Quando se viu, já está feito.
WALMOR MACARINI
é jornalista em Londrina





