Walmor Macarini
Desapegar-se das coisas
Neste ano-novo que começa vamos continuar com o propósito de trabalhar, ganhar dinheiro, adquirir tudo aquilo que desejarmos, mas sem nos esquecermos de glorificar a vida e usufruir de todas as coisas com sabedoria e sem apego. Não vamos ser cativos do trabalho nem nos escravizarmos ao resultado dele. Que esse resultado seja bom para nós, mas bom também para todos. O trabalho e o dinheiro têm que estar a nosso serviço e não nós a serviço deles.
Façamos tudo com alegria, para que aquilo que fizermos leve alegria aos que se utilizarem do produto da nossa inteligência e do nosso trabalho. Que as nossas obras e serviços não tenham apenas a função de nos trazer lucro pessoal, mas sejam úteis ao fim a que se destinem. Se fabricarmos uma panela, que ela não seja somente um produto rentável para nosso ganho, mas acima de tudo boa de cozer.
Triunfar ou não triunfar não fazem diferença, porque ambos são bens e ambos nos trarão benefícios. Basta que fiquemos atentos aos resultados que advirão. Não vamos ficar balançando entre opiniões externas divergentes, mas descobrir qual é a nossa, sem avaliações analíticas mas apenas deixando que fale nossa voz intuitiva, que esta nunca falha; deixar que se manifestem os nossos sentimentos, que estes nunca se equivocam. E assim iremos aprendendo a conhecer a nós mesmos.
Fiquemos serenos diante de todas as coisas, mesmo aquelas que temos catalogado como más. Em tudo reside um princípio de ensino e sabedoria. Não sejamos omissos e indiferentes, mas buscando compreender a natureza dos fenômenos que ocorrem conosco e que acontecem ao nosso redor.
Antes de tudo, abandonar o ódio, porque ele nos corrói. Busquemos fazer tudo bem feito, aurindo dos benefícios que tal nos proporcione, mas sem apego e sim de forma a que isso nos traga alegria interior e que mais pessoas sejam favorecidas. Não temos que nos abster de nada, porque abstenção com desejo é o mesmo que fazer, então melhor é fazer conscientemente do que torturar-se pela vontade contida.
Ao invés de apego, vamos sublimar e santificar tudo o que fizermos e então veremos as riquezas se acercarem de nós. No apego reside um temor de perda e isso afasta as coisas. A busca do ganho financeiro é uma das finalidades do trabalho, mas se temos em mente também servir, por intermédio do que fazemos, não perdemos com isso nada dos nossos lucros. Ao contrário, na continuidade ganhamos, porque levaremos outras pessoas a usufruir desses resultados e elas terão conosco, mesmo que anonimamente, um sentimento de gratidão, e nós captaremos isso.
Nos lembremos sempre de que nada fazemos sozinhos e que sempre estamos nos valendo de uma ferramenta ou de um experimento anterior de alguém. Somos sempre usufrutuários de algo que alguém fez antes, e isso torna nossa tarefa mais amena. Mesmo um erro de outrem nos proporciona o benefício do alerta, e por isso temos que agradecer também pelos que erram.
Nós nunca fazemos nada exclusivamente por nosso único mérito, mas valendo-nos de equipamentos, descobertas e inventos de outros e de experimentações já anteriormente feitas por alguém. Nessa dinâmica também os outros se valem do que nós temos feito. Este, então, o sentido belo de realizarmos as coisas, para que sejam continuidade do que alguém já fez e sejamos nós os iniciadores de algo que os outros irão fazer, e melhorar.
Se mais não fosse, é da natureza visível e invisível que extraímos os ingredientes para as nossas obras e ações. O homem planta a semente mas não é ele que a faz germinar. Temos, então, que devolver à natureza divina a parte que lhe cabe no resultado do plantar e colher, porque há uma parte substancial que lhe pertence, nesse processo. Essa devolução se basta apenas com nossa perene reverência ante os fenômenos da vida e com nosso agradecimento.
Há em tudo o que fazemos uma parceria divina que opera conosco, mas temos pensado que somos exclusivamente nós os autores das coisas que fazemos, tanto que até exigimos direitos autorais. Importa menos as coisas que fazemos, e muito mais a intenção que dedicamos ao fazê-las. Ante todas nossas obras temos que elevar a consciência um pouco mais para o alto, porque em tudo está a face de Deus, que é o que cria conosco e permite que criemos com ele.
WALMOR MACARINI
é jornalista em Londrina





