Um bilhete para a jornalista

Ana Marta me cita no livro dela e agora eu a cito nesta coluna, e assim um fala do outro e viramos notícia. Ela me elogia e eu a elogio. Temos o domínio da palavra impressa, então podemos falar de nós mesmos à vontade. Será abuso de poder? Melhor chamar de liberdade de imprensa. Assim podemos argumentar que estamos defendendo uma boa causa.
Ana Marta faz 20 anos de jornalismo social e coloca num livro fragmentos de sua vida profissional. É aí onde eu entro. Porque vivemos juntos bons momentos neste jornal, onde ela começou, e eu também. Eu com 25 anos de dianteira, o que me dá ao menos a vantagem de haver conhecido mais gente e poder contar mais histórias. Mas, sobretudo, de haver tido o privilégio de, por chegar mais cedo, reservar-lhe a cadeira que seria dela para o exercício do colunismo social. Um gênero de jornalismo que, se bem elaborado, tem mais peso que as colunas de opinião e do próprio Editorial. Por isso eu, atendendo a dever de ofício, me preocupava com a coluna social, porque mostrava a pesquisa era a primeira coisa que os leitores liam ao abrir o jornal, depois da primeira página.
Aquele espaço, que retratava o que os colunáveis faziam depois do expediente, era de fundamental importância. Ana Marta não errava os nomes das pessoas nas legendas das fotos e isso me tranquilizava. Ela conhecia todas as pessoas, por isso não cometia descuidos. Porque nada é mais revoltante do que vermos nosso nome escrito errado. Se o jornalista erra o nome de determinada pessoa, ela imagina que ele tenha errado também os nomes das demais, assim como outras coisas contidas no texto. Eu era exigente, não apenas com a coluna social mas com o jornal inteiro. Brigava por uma vírgula fora do lugar, mas Ana Marta acabou muito competente. Quando eu me encantava com algo bem escrito, dizia-lhe que estava tão bem que nem eu faria igual...
E se fosse preciso fazer uma crítica, sobretudo quando eu encontrava nos textos algum pecado de imprensa, sacava a frase feita que eu não sabia se irritava quem a ouvia ou lisonjeava:á ''Você tem condições de fazer melhor''. Eu fazia isso com todos os jornalistas. Era uma forma de mexer com brios profissionais. Certo é que isso produzia bons resultados e não melindrava ninguém. Eu também submetia os meus textos à revisão de alguém.
Quem conhece Ana Marta sabe que ela é doce e dengosa e que chora ante qualquer emoção. Num bilhete que lhe passei, no alvorecer dos seus escritos, pedi-lhe que prometesse só chorar por absoluta necessidade. Gracejos, porque ela chorava sorridente, e se dores tinha não demonstrava. Esse bilhete ela guardou e agora vejo-o reproduzido em seu livro. (Temos que tomar cuidado com os bilhetes e com o poder da palavra, sobretudo quando em letra de fôrma). A homenagem que Ana Marta agora me presta, citando-me no livro assim como a tantas outras pessoas me lisonjeia. Pela própria natureza e também por herança de família, Ana Marta é gentil e delicada nos gestos e nas palavras.
Em tempos de pós-Revolução, quando os jornalistas ainda guardavam rancores do regime, por conta do que fora o cerceamento da liberdade de imprensa e porque predominava um certo preconceito contra as alas que denominavam de burguesa, Ana Marta conseguiu impor-se perante os colegas, fazendo um gênero de jornalismo cuja matéria-prima eram justamente as pessoas da alta roda social. Ganhou respeito dos colegas porque exercia o trabalho de forma profissional, sem prejuízo de que ela própria fosse uma socialite.
Esses velhos conceitos desapareceram do meio jornalístico, porque os profissionais de imprensa, hoje, são quase todos jovens e desconhecem o que foi aquela era de chumbo, que começou em 1964 e foi até os anos 80, portanto quase duas décadas de liberdades cerceadas.
Revisitar Ana Marta em seu livro é reviver momentos de agradável convivência passados na redação deste jornal, envoltos no permanente stress da luta contra o relógio mas com a alegria diária de elaborar algo em benefício das pessoas e que as fizesse mais felizes. O jornalismo com função social, como dizíamos em nossos jargões. No caso de Ana Marta, era social e era soçaite.
Esta crônica é um novo bilhete que agora mando para ela. Sem reparos.
Não chore, Ana Marta. Só se for preciso!


- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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