Walmor Macarini
Tributo ao meu violão
Contemplo o meu violão e imagino que aquela harmoniosa configuração de madeira e fios de metal encerra todas as melodias do mundo, conhecidas ou nunca tocadas, e as que estão além dos nossos sentidos.
Ele repousa, silente, guardando sons que não conheço mas que pressinto. Meus dedos não sabem extrair dele tudo o que a sua natureza guarda. Meu violão ainda não foi plenamente revelado. Penso que cometo uma heresia ao deixá-lo assim sufocado, porque sei o quanto há dentro dele por dizer.
Mãos mais hábeis ainda não o tangeram e temo que isso possa não acontecer. Poderia doá-lo a alguém com quem ele melhor se identificasse, mas ocorre que tenho ciúme do meu violão. E penso que todos que tocam já têm o seu, tão bom quanto o meu. Fico então nessa agonia de querer conversar com meu violão. Mas como, se não falo a sua linguagem! Ele é erudito demais, e nem a minha mente e nem as minhas mãos o acompanhariam.
Dói-me sentir a sua voz contida. Sinto-me responsável por aprisionar nele tantos sons. Ouço-o clamar que eu permita a ele revelar-se, mas, muito involuntariamente, o contenho. Sei de quanto ele é capaz e ele sabe que eu sei disso. Imagino que ele também sofre por mim diante de minha inaptidão. Sinto-me frustrado, mas sei que ele também sente a minha frustração. Meu violão é solidário nas minhas alegrias e nas minhas dores. Quem sabe, até, me compreende e me perdoa.
Eu acaricio meu violão e fico seduzido pelos seus delicados contornos. Deslizo com cuidado os dedos sobre as suas cordas, mas isso é muito pouco. Meu violão tem muito mais para dizer-me, mas por seus maus fados ele fez um casamento equivocado comigo. Eu deveria tê-lo deixado na loja para, quem sabe, mãos mais habilidosas haverem se apossado dele.
Imagino meu violão empunhado por um Tárrega, um Segóvia, um Paco de Lucia, um Atahualpa Yupanqui, um Américo Jacomino, um Sebastião Tapajós, um João Pernambuco, um Paulinho Nogueira, um Dilermando Reis, ou este menino brasileiro-gaúcho Yamandu Costa, que com tão pouca idade surpreende pela sua destreza e pelas improvisações.
Todas as músicas já estão dentro do violão, concluídas, e todas as criações e recriações nada mais serão do que substratos de seu próprio manancial infinito. Ninguém ainda arrancou dele a sua última palavra.
Meu violão nunca dorme. Apenas aguarda. Em qualquer momento ele está pronto. Parece que se alegra quando liberto dele alguns sons. Tenho pedido que ele me ensine a extrair dele as suas riquezas. Alguns acenos ele me dá, e assim vou fazendo avanços.
Nestes tempos de guerra combinamos, eu e ele, de tocar um sino pela paz. Minha alma toca com a alma do meu violão, e nisso nos entendemos. Ele me revelou que na nota Lá Maior há uma sincronia com todos os sons do universo. Então, brandi ao mesmo tempo todas as cordas do Lá e elas emitiram o imaginário som de um sino. Assim ficamos eu e meu violão, durante longo e contínuo período, soando esse carrilhão pela paz no mundo. Percebi que esse repetido e compassado badalar foi assumindo uma vibração de mantra e que esse clamor de sino parecia vir de um plano mais alto, ganhando dimensão e ecoando por toda a face da Terra. Temos, eu e meu violão, repetido isso com frequência.
Em minha cidadezinha, eu, adolescente, tocava o sino da igreja, por dever de ofício, e talvez daí tenha associado o violão ao som dos sinos. Foi um desprendido tio meu, que hoje toca em outras paragens e não por acaso tinha o nome de Santo, quem me deu o primeiro violão. Era desses de cravelhas, com o tampo meio rachado, mas que, mesmo em sua fragilidade física, guardava também ele em seu âmago todas as músicas. Bastava extraí-las. (Veja-se a importância de ter tios generosos! Tive um outro tio que me deu a oportunidade de ser jornalista.)
Violões me fascinam muito. Basta eu vê-los na vitrina. Só não compro todos porque estaria tirando-os, sabe-se lá, de mãos que o sublimariam mais. Porém eles me fascinam sobretudo quando em poder de mãos exímias para tocá-los. Porque um violão não é celibatário. Ele só consegue emancipar-se acasalado. E também não pode acasalar-se mal, como eu e o meu...
Um violão é a continuidade de nós mesmos. Porque ele é perfeito em sua essência, assim como também nós o somos. Penso que Deus, ao produzir a mulher, inspirou-se no violão, que ele certamente tocava em suas tertúlias nas eternas noites enluaradas do Paraíso. Deve ser por isso que nas madrugadas frias de luar a voz do violão é mais cristalina.
Eu abraço meu violão e o acarinho, como um corpo vivo que é, e sinto-lhe o sussurrar da alma. Agradeço por meu violão e peço licença ao tocá-lo. Penetrar na profundidade do conhecimento latente de meu violão é como mergulhar no insondável mistério do universo.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina





