Walmor Macarini
Se uma pessoa tem a aparência de má, com certeza está vivendo essa condição; se tem o jeito de desonesta, é bem provável que no momento o seja; se aparenta ser falsa e dissimulada, deve estar vivenciando esse estado de ser. É difícil uma pessoa esconder o estado emocional que está experimentando. Seus pensamentos conferem-lhe uma fisionomia afim e uma correspondente e indisfarçável amostragem. São marcas da personalidade, que naturalmente podem alterar-se, alterando-se assim também a aparência. Portanto, dificilmente sempre considerar que todos são iguais, e aí tudo se resolve. Isso não invalida a ajuda. Se nem todo mendigo quer ser mendigo, mas deseja levantar-se, então devemos estender-lhe a mão. Mas não tutelá-lo se ele pode viver por seus próprios meios.
Às vezes nos apraz ajudar e manter pessoas apenas para demonstrar nosso poder, mas é certo que, nessas horas, estamos tirando o poder delas próprias. Não devemos incentivar uma pessoa a sentir-se dependente, porque se o fizermos, ela passará a crer que não é auto-suficiente. Pode viciar-se no hábito de ser ajudada. A melhor forma de ajudar a uma pessoa fragilizada pela descrença em si própria é demonstrar que ela é capaz, que não é inferior, nem por pobreza, ignorância, deficiência física.
A pessoa culta difere da subletrada apenas no que o arquivo de seu intelecto guarda. O sábio difere do ignorante só pelo fato de haver atingido um maior grau de entendimento, mas isso não o faz superior ao que pouco entende. Quando se diz que somos todos filhos de Deus, significa que nossa realidade transcendente (aquela que não é da aparência) é produzida com a mesma argamassa. Nem um átomo a mais nem a menos. Distinguir o sábio do ignorante não significa fazer um julgamento, mas apenas admitir que há graus diferenciados de sabedoria entre os dois.
Uma pessoa pode ter mais poderes que outra, em cada circunstância, mas isso não a faz superior. Cada pessoa tem mais valia, em cada situação, segundo as coisas que faz, mas a essência não se altera em ninguém em função disso. Todos são capazes de fazer bem determinada coisa.
O miolo do palmito é puro e igual em todos os palmitos, independente de a planta ser mais alta ou mais baixa, estar sobre o brejo, em terra árida ou em terra fértil. Assim somos nós em nossa essência: puríssimos, sob o envoltório de muitas cascas. As cascas são nossas personalidades, nossas habilidades, nossas aparências. Que nunca comprometem o núcleo.
Na vida, pois, ninguém é mau nem bom em seu Eu profundo. Apenas, através de suas cascas, exterioriza atributos. Por que haveremos de gastar tempo fazendo julgamentos acerca de cascas?! Cascas são apenas embalagens, não o conteúdo. Este o sentido de amar o próximo como a nós mesmos. Ou seja, entendê-lo como igual. Se amamos o igual amamos a nós próprios.
Amar o semelhante não significa assumi-lo, mas exaltá-lo, fazendo-o saber que tem seu próprio poder. Ou acabaremos responsáveis por ele, e como tal ele nos conferirá um poder que nos estimula - sutil egoísmo que muitas vezes nos passa despercebido. Assim, não estamos lhe fazendo um grande bem. Mesmo se, por força de determinada situação, temos que cuidar de alguém, não podemos diminuir o poder que lhe é intrínseco e inerente. Nem que o desejássemos, isso seria impossível, porque a essência do ser é imutável e não se altera.
Onde necessário, temos que ser assistencialistas - se este é o nome que se dá ao ato de ajudar alguém que está caído - mas importa não rotulá-lo de inferior. Porque nosso estado temporário de seres humanos não nos tira a condição de eternos seres divinos. É nisso que somos iguais. O mais são aparências.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina





