Um Pelé em cada jogador

Se os jogadores de futebol já entram em campo declarando e imaginando que o jogo vai ser difícil, o mais provável é que tudo ocorra da forma que prevêem e, realmente, encontrem muita dificuldade, a ponto de não fazerem gols. Se o time adversário pensar e agir da mesma forma, haverá muita possibilidade de acontecer uma partida nervosa, truculenta, ou morna, com resultado ruim para os dois.
O primeiro erro é encarar o jogo como um confronto, quando melhor seria como uma festa esportiva e uma demonstração de habilidades. Também é erro considerar o outro time como um inimigo, se na verdade é um parceiro, que deve ser reverenciado e não temido. Um jogo haverá de ser jogado com alegria e não com ira, ou deixará de ser um espetáculo para transformar-se numa guerra em campo. Se é para ser assim, melhor é retirar a bola e armar cada jogador com uma espada e dessa forma o campo de futebol converter-se numa arena de gladiadores, e ao final resultarão vencedores os que saírem com vida.
Mas o jogo de bola não deve ser um combate e sim um belo espetáculo de coreografia, em que os artistas revelam toda a majestade da astúcia, da força física e do talento. Ora, um elenco de artistas não sobe ao palco para brigar com seus pares e sim para expressar arte e beleza, e um estádio nada mais é que uma ribalta, e a partida de futebol um espetáculo.
É, porém, o pessimismo, irmão gêmeo da insegurança própria, o grande inimigo dos atletas, e tal já começa pelo técnico, que é o mais entrevistado e por isso o que mais fala. A primeira negatividade é dizer que o jogo vai ser duro, que o adversário é muito forte, e coisas como que ''o empate fora de casa é um bom resultado''. Quem espera empate não chegará a resultado melhor. Ao exaltar em exagero o outro time, técnico e jogadores já se manifestam frágeis e temerosos, e isto não é nenhuma humildade, mas defesa prévia, como que garantindo-se de um resultado negativo.
Cada time há de imaginar-se capaz de jogar de igual para igual, com a idéia de que não existem superiores nem inferiores. Colocar-se na defensiva já antes do jogo é uma posição de derrota. Quando um novo técnico chega e vai dizendo que é preciso ter humildade, porque o campeonato vai ser uma pedreira, isto não é ser objetivo e realista, mas descrente da própria capacidade e da capacidade do time. Como ser realista se a realidade só se manifesta no final do campeonato?!
Times tidos como fracos (embora tal qualificação não deva existir, porque a fraqueza é sempre mental, não das pernas), às vezes fazem um gol numa partida com um time chamado forte. Ora, se faz um, pode fazer mais. Se o mesmo time ''fraco'', em certos momentos, faz belas jogadas ante o time ''forte'', então pode fazer a mesma coisa mais vezes. É da sabedoria popular que ''quem faz um cesto faz um cento'' (ou, quem sabe fazer um pode fazer cem). A postura correta é considerar que todos os times são iguais.
Pelé nunca considerava que um jogo seria difícil. Não porque era Pelé, mas ficou Pelé por pensar assim. Sabe-se deste excepcional jogador que ele, no vestiário, antes de cada partida, se punha em silêncio por alguns instantes e delineava mentalmente os gols que ele e seu time iriam fazer. Pelé contrariou a racionalidade do futebol, tão sacralizada pelos analistas e pela crônica. Mas é certo que o futebol é, mesmo, ''uma caixinha de supresas'', e as surpresas não ocorrem por acaso, mas são produzidas. Pelé as produzia primeiro na cabeça de pensar e depois nos pés e na cabeça de cabecear.
Em tudo na vida é preciso, primeiro, produzir na mente os bons resultados que desejamos. Não se deve pensar em jogar contra (um time), mas com. Quando jogamos baralho na roda familiar não jogamos contra os parceiros, mas com eles. Também não existem nem sorte nem azar no futebol. Existem, sim, dias de alta e de baixa motivação. E motivação nada mais é que uma disposição mental.
A sorte chega se o jogador crê em sua própria potencialidade; assim com o dito azar. Perguntaria alguém: e se os dois times entrarem em campo com o mesmo otimismo? A resposta é: proporcionarão um grande espetáculo de futebol.
Não há humildade em exaltar tanto o adversário, antes de um jogo, porque aí pode estar se escondendo uma justificativa para a eventual derrota. Assim se dá também com o receio de contundir-se em campo. Jogador que entra com esse medo corre mais risco de machucar-se ou de machucar alguém. Se nos fixamos em uma coisa, a atraímos. Mas jogar com imprudência, aí já é entrar na zona do perigo deliberadamente. É também uma inutilidade acreditar na ajuda das divindades se o jogador não se apoiar primeiro nele mesmo. Santo gosta de jogar se o jogador mover as próprias pernas com convicção, ou irá para junto da galera para assistir aos tombos...
Em futebol não existem forças ocultas, mas forças claras. Que estão na cabeça de cada jogador, de cada técnico, de cada torcedor. A crença não é raivosa, mas serena. Às vezes, no gramado, o próprio jogador é o seu pior adversário. E este, sim, é preciso temer. Como em tudo na vida, não há obrigatoriedade de ganhar, no sentido de sobrepor-se a alguém, e sim de crer que é possível.
Bons jogadores não ficaram bons por acaso, mas porque acreditaram em si próprios. Otimismo não pressupõe apostar na ''derrota do adversário'', mas apenas admitir a capacidade de fazer os gols necessários. Cada jogador precisa acreditar que tem um Pelé dentro dele. Pelé sempre acreditou que havia dentro dele um Pelé...


WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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