Walmor Macarini
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 24 de outubro de 2001
Walmor Macarini 
As igrejas podem não admitir, a priori, que a imagem que apareceu sobre um bolo, em Arapongas, seja de uma santa, mas não podem negar que um tal fenômeno possa ocorrer. Sempre que algo semelhante acontece, as religiões são as primeiras a declarar que isso não existe. Pregam a espiritualidade, mas a negam quando ela se manifesta. É, de certa forma, uma ausência de crença, porque nesses casos nunca poderão provar nada se já estão predispostas a não crer.
O episódio que agora ocorre é apenas uma manifestação rudimentar, porque muito mais que ver a imagem sobre um bolo é ver a santa e conversar com ela. Milhares de pessoas no mundo fazem isso, a todo instante e nos mais diferentes lugares e situações. O normal é a conexão e a intercomunicação com as dimensões mais elevadas, o anormal é tal não acontecer. Ocorre que a maioria dos que têm o dom desses contatos se calam, ante os que desconhecem tais fenômenos, porque é grande a corrente dos incrédulos. Não há porquê criar atritos com eles, eis que tudo chegará a seu tempo.
As religiões convencionais não permitem que seus fiéis creiam ''nessas coisas'', pois as associam até a crenças demoníacas. A prisão a dogmas religiosos, que são inoculados nas mentes dos fiéis, imobiliza-os e bloqueia os seus canais com os planos mais altos, e assim lhes tira a oportunidade de ''visões do paraíso'' e do mundo paralelo que os cerca. Na verdade, tudo é um só mundo, apenas disposto em dimensões diferenciadas. O que enxergamos com os olhos carnais é a ilusão, aquilo que perece; o que vemos com os olhos interiores (e literalmente vendo, não no sentido apenas imaginário) é o real, o imutável e imperecível.
A aparição de uma imagem sobre um bolo é ainda um fenômeno de menor relevância. Ele se manifesta assim, até de modo grosseiro, em função do nível de convicção de seus agentes. Não são eles que criam o que já é e está, porém é certo que a manifestação se processa segundo o refinamento espiritual de cada um e da sua qualidade de crença. Não existe uma pessoa mais evoluída que outra, em sua essência, mas a densidade mental nela encobre aquilo que supõe inexistente, até porque nesse nível de consciência a sintonia com o transcendente não se opera. As divindades não se sobrepõem ao livre-arbítrio de outrem, apenas esperam que tudo aconteça naturalmente, segundo a vontade de cada um.
Nem tudo o que não é explicado cientificamente deixa de ser real. Não se pode ver as coisas apenas da forma que os olhos físicos enxergam, porque esta é apenas uma pequeníssima parte, não a realidade total. Tudo o que se vê na linearidade é o que não é, e aquilo a que se dá o nome de sobrenatural é justamente o único verdadeiro. Pelo fato de impor-se limites, a pessoa nada vê ou sente de extracorpóreo, mas o que é continua sendo, à revelia do que ela queira que seja diferente.
A verdade é que temos uma dimensão que transcende o corpo físico, embora o corpo também participe, porque não está alheio enquanto pulsa vida nele. As crianças e as pessoas livres de convenções religiosas são mais propensas à comunicação com a realidade invisível, porque têm os portais abertos. Se o ser humano se livra das idéias de limitação, começa a perceber essas ''aberturas para o céu'' e então entra em nível mais elevado de consciência.
Não precisamos morrer para ver nossos mestres ascensionados, nossos santos de devoção, nossos anjos e nossos antepassados. Podemos vê-los a qualquer instante e conversar com eles agora. Mas pode também ocorrer de não conseguirmos nada disso nem aqui e nem depois de nossa transcendência para o plano imediatamente superior, se já não acreditamos poder contatar com eles agora. Porque ''assim na Terra como no Céu''. O ''outro lado'' não muda muita coisa para nós se não saímos mudados daqui. Poderá então ocorrer de desejarmos voltar e resgatar a oportunidade perdida...
Se nos apegamos demais às coisas terrenas e às vozes dos templos - onde nos tacham de pequenos e pecadores, sujeitos a arder no fogo do inferno - fechamos as portas para a multidimensionalidade, onde podemos vislumbrar tudo a um só tempo, sem bloqueios. Nossa dimensão sutil não é esta que vemos e que sentimos, mas algo mais qualificado a que se dá o nome de Eu Superior. São os olhos desse Eu maior que vêem a realidade única que nosso ''eu menor'' não alcança.
As pessoas têm considerado mais a verdade dos sentidos que a da intuição - que emana do Eu Superior - porque não costumam dar-lhe atenção. A intuição é o vislumbre e a idéia que chegam primeiro, mas que nem sempre seguimos, preferindo consultar nossas posições analíticas, que são as dos sentidos. O analítico sufoca o intuitivo, que é a voz da nossa substância refinada, o espírito. O ser humano está escravizado a idéias de limitação, e assim não pode conversar com os anjos e os santos, que nos rodeiam permanentemente e querem estabelecer um diálogo conosco. Acredita que há uma muralha que o separa deles, e assim não enxerga o vasto panorama que se descortina além dela.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


