Todos nós já manifestamos nossa opinião e nossa posição sobre a guerra, extravasamos nossos ódios contra George Bush e Osama bin Laden, contra os norte-americanos e contra os que fizeram explodir as torres de Nova York. Também já fizemos aflorar a erupção que repousava em nosso inconsciente e precisava libertar-se. Mas agora que abrimos esse vácuo é hora de deixarmos que se manifeste a porção divina que existe em cada um de nós e, assim, possamos dar passagem aos sentimentos de compreensão e de paz.
Vamos contemplar a guerra de frente, continuar a assisti-la pela TV e a lê-la pelos jornais se for da nossa vontade, mas em serenidade e pondo em repouso nossa mente já cansada de tanta explosão, tanta destruição e tanto morticínio. Vamos soar dentro de nós os sinos da paz. Os que sabem cantar, que cantem por ela. Os que sabem tocar um instrumento, que produzam os mais belos sons e os remetam para as frentes de guerra e para as câmaras dos que a articulam. Os que sabem orar, que orem pelas facções mais diretamente envolvidas no conflito. Os que têm coração, que o abram, para libertar os sentimentos de amor que estão ali aprisionados e que, no entanto, nos unem - fraternos e iguais que somos.
Os que sabem sorrir que esbocem dentro de si um largo sorriso em intenção das dezenas de milhares de crianças afegãs que agonizam pela fome, e para todas as crianças do mundo envoltas em sofrimento. Os que têm energia e vitalidade, que emitam correntes de força para os enfraquecidos da Terra. Os que têm alimento em abundância e habitam boas moradias, que dirijam suas mentes de compaixão para os famélicos do planeta e para os que tiveram suas choupanas e suas cidades devastadas pelas bombas.
Os que têm o dom de amar, que se entreguem ao silêncio e façam muitas preces por este homem Bin Laden, que nem conhecemos, e busquem acender uma luz em seu coração, sem nenhum resquício de relutância; que façam muitas orações por este homem George Bush, para que se apague nele a chama da vingança e se reacenda a luz da sabedoria que habita em seu espírito e assim lhe indique caminhos mais amenos de solucionar o impasse que atormenta a poderosa nação sob a sua guarda.
Os que têm religião, que se lembrem então que este é o momento de colocar em prática o que lhe ensinaram os mestres e os santos. Os que leram os fundamentos dos livros que proclamaram sagrados, que extraiam deles as suas máximas, e amem os inimigos que elegeram nesta guerra. Que haja paz na Terra, porque é da vontade dos homens que assim seja, mas talvez eles nem tenham se apercebido disso. Os que sabem ensinar, que ensinem a sabedoria do perdão àqueles de corações mais endurecidos e que ainda não sabem o que fazem.
Os que sabem falar, que falem palavras que robusteçam as correntes da paz que neste momento bradam dentro do peito de muitos, mas que ainda são poucos. Os que são pais, que digam aos filhos que para evitar as guerras será necessário que aprendam a arte de partilhar; os que são filhos, que se detenham ao menos por um instante e imaginem uma luz se acendendo em meio a essa escuridão. Os que sabem curar, que dirijam o bálsamo da sua luz de cura sobre esses corações feridos e doentes. Os que sabem escrever, que escrevam palavras de paz e evitem semear mais discórdia.
Os que são árabes, os que são judeus, os que são muçulmanos, os que são hinduístas, os que são católicos, os que são evangélicos, os que são esotéricos, os que são ateus, abram o livro da sabedoria que repousa sobre o púlpito de seu santuário interior e permitam que flua o manancial inesgotável do amor que ali existe. Compomos uma só família neste planeta que elegemos para nossa experienciação terrena. Podemos então nos recolher à trincheira para uma pausa e um cessar-fogo, porque os canhões que troam no front se alojam também nos bunkers instalados dentro de nós.
Mas se resolvermos criar uma corrente de amor e paz podemos neutralizar a força da fúria guerreira que invade o mundo. A guerra nos convoca para nos mostrar o estrago que fizemos, mas que podemos conter e reparar. Porque a mente coletiva que teve o poder - embora inconsciente, porque não vigiado - de plasmar esse conflito em nossa aldeia terrena, é a mesma mente com o poder de apagar o fogo que o incendeia. Nossa porção divina ficou sufocada pelo predomínio do ego, que durará menos ou mais tempo na proporção da importância que dermos aos momentos em que as fagulhas de nossa luz interior nos fazem vislumbrar a verdade. Essa luz mais se expande quanto mais tomarmos consciência de sua existência e mais ficarmos atentos a ela.
Somos os seres terrestres que haveriam de estar aqui nesta mudança de milênios, e talvez não tenhamos ainda prestado atenção a esse fato. Porque estes são tempos muito significativos na história da Terra e de nós que a projetamos para habitá-la e divinizá-la. Este é um tempo de guerra mas é também um tempo de expansão da consciência da humanidade. É muita responsabilidade estarmos aqui, nesta hora. Porque fomos nós mesmos que desejamos que isto acontecesse.
Não desperdicemos, pois, este momento que tanto temos aguardado. Fomos os artífices de guerras, para com elas aprendermos a construir a paz. As lições estão sendo dadas. Prestemos atenção a elas. Ou talvez tenhamos que passar pelo processo da repetência, e isso será um grande retardo na caminhada de retorno que estamos empreendendo e que não está longe de se concluir.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

mockup