Educação é outra coisa. Pretende-se que seja a plena sabedoria. Um homem educado seria um homem sábio. Como as escolas ensinam pouco a sabedoria e ocupam-se mais de disseminar informações, acabam formando homens não suficientemente preparados para evitar coisas como as guerras.
Incorreto imaginar que o mundo só se salvará pela via da escolaridade. Povos analfabetos podem ser povos sábios; povos altamente alfabetizados podem ser povos guerreiros. A religião e a instituição familiar - que junto com a escola compõem os pilares da formação dos cidadãos - também não são garantias de produção de homens melhores.
Quando a Alemanha entrou na Grande Guerra, os alemães ostentavam um elevado grau de alfabetização; constituíam uma nação civilizada, no sentido clássico do termo. Mas todo esse conhecimento não lhes serviu para evitar o conflito. Os índios americanos foram o povo mais sábio que a América pós-descobrimento conheceu. Eles não frequentaram escolas.
A América de George Bush tem pouquíssimos analfabetos; ao contrário, numerosíssimos graduados em Harvard. E Harvard é apenas uma símbolo, porque pode ser outra das tantas e gloriosas universidades americanas, formadoras de homens invejáveis e centros de inteligência reveladores de privilegiados cérebros. Mas são também os homens de Harvard que fazem as guerras.
Tom Ridge, veterano do Vietnã, atual governador republicano da Pensilvania, vai deixar o cargo para assumir, a convite de Bush, o Escritório de Segurança Interna dos EUA, recém-criado por necessidade de guerra e que será o órgão centralizador da política de segurança do país, neste momento crucial. Ele se formou em Harvard, com honras, e como governador em dois mandatos foi também o homem que assinou 200 condenações a pena de morte, em seu Estado. Harvard, como se vê, não lhe ensinou nada melhor para recuperar um sentenciado do que matá-lo.
Hoje, os 260 milhões de norte-americanos são favoráveis a um revide armado, e parece que não medem consequências. Essas pessoas cursaram escolas, a maioria dos adultos tem graduação superior, mas a escolaridade não lhes deu sabedoria suficiente para afastar a obsessão pela guerra. Antes, as fez autoritárias, amantes de soluções armadas, de extermínio em massa, de que foi exemplo irrefutável a execução das populações civis de Hiroshima e Nagasaki, das aldeias vietcongs e por aí afora.
Então, há que fechar as escolas? Não isso, mas melhorá-las. Para que se transformem em formadoras de sábios. Para isso será necessário que também os professores sejam sábios. Formação universitária e intelectualidade não pressupõem sabedoria. A escola, a família e a religião se fundem e formam um só pensamento, porque interdependentes e visando ao mesmo ideal de preparar indivíduos para enfrentar o mundo, quando deveriam prepará-los para que o construíssem e o fizessem melhor, não competindo mas partilhando. Ocupam-se das questões temporais, voltadas para a sobrevivência do homem num universo de disputas, de competitividade e de enfrentamento da vida, quando melhor fora ensinar-lhes a experienciá-la, de maneira participativa e fraterna.
Há uma diretriz que as identifica: as necessidades do homem ente carnal, que precisa sobressair-se, conquistar seu espaço, ser o melhor e assim ocupar os melhores lugares. Não necessariamente com orientação e meta de edificar um mundo bom para todos, mas de salvar a si próprio. Não é utopia imaginar que a escola, a família e a religião possam ensinar a fraternidade, a solidariedade e o direito à participação nas riquezas nacionais e aos bens que são universais - afinal suficientes para todos.
A instituição do direito à propriedade gerou aqueles que desejaram usurpar essa propriedade, e a eles se deu o nome de ladrões. Em ambos os casos - dos que possuem e dos que não possuem - reside o anseio da posse, e por ela se fazem guerras. Não será preciso fazer muitas contas para saber que há terra de sobra neste vasto mundo para quem desejar trabalhar nela; que há alimentação abundante para todos, se houver o propósito de bem distribuí-la; que qualquer bem sob o sol é propriedade de todos e que há de tudo em excesso. Mas o homem não foi ensinado a partilhar e a compreender que necessita de muito pouco para viver feliz. O que poucos têm demais, falta aos muitos que têm pouco.
Faltou ao homem a sabedoria para dividir. Nem a escola, nem a família e nem a religião o ensinaram a fazer essa conta. A escola não permite a revelação desses homens conscientes, ou os produz em reduzido número; a família concorda com os métodos de ensino da escola; esta segue os ideais da família, que se estribam nos princípios da religião, ou vice-versa; a religião visa garantir ao homem um pedaço do Céu mas não o ensina a conceder a cada um a parte que lhe cabe aqui na Terra.
O homem chega trôpego e atribulado ao terceiro milênio, e tudo o que ele veio aprendendo não o ensinou a viver em paz no paraíso de abundância que é esta morada terrena. No alvorecer do novo milênio ele pode assistir ao espetáculo da guerra no conforto de sua casa, através de uma avançada tecnologia que inventou, sem perceber o paradoxo de que assiste ao retrato do atraso da humanidade.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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