As religiões, em bora devessem, não são nivela doras do grau de espiritualidade das pessoas. Pastores amea lham riquezas, roubam suas igrejas e fogem, padres são acusados como mandantes de crimes, evangélicos sequestram, católicos envolvem-se em delitos, muçulmanos praticam barbaridades, e assim por diante.

O sequestro da filha de Silvio Santos trouxe à baila discussões acadêmicas sobre o valor da religião, eis que a sequestrada a princípio declarou compreender e haver perdoado o sequestrador. Supostamente por mérito da evolução espiritual cultivada em sua igreja evangélica. Depois se calou, quando o sequestrador, também evangélico, deixou de ser bom moço, pois matou dois policiais e praticou uma nova modalidade de sequestro, ao manter o pai da jovem sete horas sob a mira de uma arma.

Os purpurados católicos, que tinham poderes de Estado, cometeram as atrocidades da Inquisição, que qualificaram de santa. Os norte-americanos, que formam a nação mais evangélica do mundo, são os campeões das guerras. A cada 10 deles, pelos menos 8 têm em casa uma bíblia e... uma arma. Eles praticam exercícios com as duas.

Os irlandeses se matam por causa do fanatismo religioso, agora já convertido em ódio pessoal. No Irã, os aiatolás perseguiram e expulsaram do país os seus patrícios que não professavam o mesmo credo. No Oriente Médio, as guerras não são apenas pela disputa territorial, mas ocultam arraigadas dissenções religiosas. E os talibans, veja-se o que aprontaram!

Se a religião de cada um não fez melhores esses fiéis é porque, certamente, os manteve humanos demais. Não os tocou, não os atingiu no âmago, no ''ponto G'' da sua espiritualidade. Motivou-os mas não os conscientizou. Se recuperou a muitos, sobretudo de vícios sociais, fanatizou uma grande quantidade. Mas é certo que conservou demais o homem com os pés no chão, apequenou-o quanto à sua origem divina e à sua relação com a eternidade, e muito pior criando um Deus cheio de graças mas também punidor e distanciado dos ''pobres mortais''.

Aproveitando o episódio do sequestro, por envolver pessoas de relevante expressão social, e dois evangélicos o sequestrador e a sequestrada estudiosos das religiões dominantes foram ouvidos, mas pouco acrescentaram. Ficaram no patamar da avaliação das religiões como um fator cultural, a medir as perdas numéricas da Igreja Católica na sua relação com o evangelismo, sem penetrar no campo da fé e no seu sentido metafísico.

Muito mais esses estudiosos não poderiam dizer, porque as religiões tradicionais continuam realmente sendo o que sempre foram: poderosas corporações político-religiosas, descuidadas do que deveria ser o fundamental: preparar o homem para a sua relação com o transcendente o que poderia afastá-lo do fanatismo, das disputas, dos conflitos, das guerras. E, quem sabe, o jovem sequestrador ''um bom menino'', no dizer de Silvio Santos pudesse haver aurido, dentro de sua igreja, um tal nível de elevação de consciência que o livrasse do estigma de cometer o ato que cometeu.

O pastor da igreja do rapaz eximiu-se, com um argumento material e outro espiritual. O material, que ''foram as más companhias'', implicitamente admitindo que a companhia da igreja não resolveu; o espiritual, que ''o demônio trabalhou a cabeça dele de forma estupenda''.

Esse Senhor das Trevas é uma figura muito cultuada nas igrejas bíblicas, desde que foi entronizado nos templos pelos pintores sacros, por encomenda dos papas. Os evangélicos (dissidentes dos católicos, ou protestantes, porque se insurgiram contra o Vaticano), seguiram-lhes os passos, ao menos quanto à crença no demônio. As igrejas tradicionais do Ocidente o reconhecem, dão-lhe validade e o citam muito até como forma de intimidar os fiéis e mantê-los atrelados e isto significa uma forma de culto. Evidente que as ''forças do mal'' originam-se do próprio inconsciente coletivo, e o que a mente cria ganha forma.

É certo que as religiões poderiam produzir homens melhores, já que os arrebanham, exercem sobre eles grande poder e, como tal, assumem responsabilidade mas para isso seria preciso que elas próprias se tornassem melhores. A igreja evangélica tradicional, ao menos, ensinou aos homens que eles deveriam progredir pelo próprio esforço e que a riqueza era uma graça de Deus, portanto atingível no que não estava errada, ressalvados os desvios quanto aos meios para alcançá-la e a forma de empregá-la, o que não foi de sua culpa. Já a Igreja Católica defendeu a pobreza e o sofrimento como dons da vontade divina, e assim afundou os crentes em idéias de conformismo. Certamente que Deus nunca concordou com isso.



- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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