Walmor Macarini
Nós, adultos, achamos que podemos expli car tudo às crianças, mas quando elas nos perguntam por que os homens fazem as guer ras, ficamos sem resposta. Se não sabemos responder-lhes essas coisas mais complexas, muitas vezes não sabemos também as simples. Minha amiga ficou embaraçada apenas porque seu netinho perguntou-lhe, ao ganhar dela um ovo de Páscoa, se ela tinha mesmo visto o ovo ''saindo do bumbunzinho do coelho''.
Quando, diante das crianças, os adultos falam por códigos ou por meias-palavras se querem ocultar-lhes algo, enganam-se porque o inconsciente dos pequenos armazena as palavras, mesmo sem entendê-las, e um dia as decifrarão. Eu tinha 6 anos e ouvi uma conversa muito interessante entre minha avó e minha tia, que ia se casar. Não sabia o significado das palavras, mas as gravei inconscientemente e quando tinha 10 anos pude saber, com detalhes, o que elas haviam conversado. E que não era, realmente, ''coisa para criança ouvir'', ao menos segundo os conceitos da época.
A criança é como a terra, que absorve a semente e em determinado momento revela o seu conteúdo ao fazê-la germinar, florir e frutificar. Tudo o que a criança armazena em determinado momento de sua vida, acaba manifestando um dia. Se não queremos surpresas futuras, tomemos cuidado com o que falamos (naturalmente de ruim) diante dos ouvidos armazenadores das crianças.
Na verdade, pouco ensinamos a uma criança, mas apenas ajudamos a que se revele nela aquilo que ela já sabia ou intuía. Por isso que algumas custam a aprender na escola ou com os pais. É que, nesses casos, nem os mestres e nem os pais conseguiram passar-lhes aquilo que o inconsciente delas já rejeitava. Quando algo que dizemos se identifica com o que a criança já guarda dentro de si, isto então se expressa nela. Imaginamos que ela aprendeu, mas na verdade apenas foi tocada naquilo que já guardava consigo.
Por que as crianças absorvem mais rapidamente certas coisas e têm dificuldade em outras? É porque aquilo que elas não desejam não está dentro delas, não tem com elas nenhuma afinidade. Quando uma criança chora por simples capricho, nós corremos para mimá-la, aí ela se identifica com o ardil do choro e passará a usá-lo sempre que necessário. Encher de conhecimento a cabeça de uma criança pode torná-la intelectual, mas não necessariamente uma pessoa sábia. É bom ir plantando em sua mente também sementes de sabedoria, para despertar o que, por natureza, já lhe é inerente.
Temos que deixar que os pequenos acreditem em mitos e lendas. Porque enquanto nós queremos que tenham os pés no chão e a mente objetiva, elas podem estar conversando com os anjos ou brincando com as fadas...
Com toda certeza nós, adultos, temos muito a aprender com nossos baixinhos. Eles podem brigar entre si mas nunca ficam inimigos. Porque ainda não aprenderam dos adultos que, quando dois brigam, precisam ficar intrigados e sem mais se falarem... Um mestre ensina, mas se está atento pode aprender muito com seus discípulos. Dia chegará em que as crianças só irão aprender aquilo que querem e não tudo o que a escola quererá lhes ensinar. Elas ditarão ao mestre o currículo.
Pais e mestres devem castigar menos as crianças, repreendê-las menos e não lhes impor tantas horas diárias de aulas, eis que duas horas, apenas, são suficientes. É o tempo que dura um filme, um espetáculo artístico, uma partida de futebol. O mais é desperdício de tempo e de energia. Nos meus tempos de criança e adolescente minhas professoras davam menos aulas e soltavam os alunos na biblioteca da escola, sobretudo quando chovia e chovia muito para ler o que quisessem e sair de lá à hora que desejassem. Não se soube de nenhum que saiu burro...
As escolas, geralmente, ensinam às crianças que o mundo ''lá fora'' é de competição, que vence o mais forte. Aí elas saem competindo e buscando vencer na vida o que elas podem entender como vencerem-se uns aos outros... Melhor seria ensiná-las não a enfrentar a vida, mas a experienciá-la; não a competir, mas a partilhar.
Criança é assim como cachorrinho. Eles sabem quando não gostamos deles. Mas não só com as crianças: quando temos antipatia por alguém, essa pessoa logo nota. Se somos jeitosos com as crianças, geralmente o somos também com os adultos. Quem se dá bem com uma criança se dá bem com qualquer pessoa.
Se a criança vai saindo da idade infantil e entrando na adolescência, costumamos dizer se ela pratica uma ''arte'' que já está bem crescida para estar fazendo essas coisa, mas se ela quer fazer algo que julgamos pertinente aos adultos, a advertimos de que é ainda uma criança... Aí ela fica na dúvida sobre o que realmente é, porque a rotulamos segundo as circunstâncias e os nossos conceitos, e não segundo a realidade, ou... a real idade delas.
Prestemos atenção às crianças. Elas chegam com a missão de fazer o mundo melhor. Vamos, então, propiciar-lhes todo o instrumental possível para que tenham o melhor desempenho nessa tarefa. Elas fazem parte da nova raça que está chegando, para divinizar a Terra e torná-la melhor de se viver. Há um grande número de gênios e sábios entre elas. Deixemo-las que cresçam, libertas. Que não sejamos nós, adultos, pedras de tropeço em sua jornada. As crianças que temos e as que irão chegando formarão a civilização que glorificará esta morada terrena. Devemos preparar-lhes o campo. Elas trazem consigo a missão de deixar o mundo melhor também para nós que ainda haveremos de vir...
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina





