Walmor Macarini
Minha amiga tem no ''des canso'' da tela de seu computa dor a imagem de Jesus. Nos inter valos mais de morados entre uma tarefa e ou tra, o rosto do Mestre aparece. Dia destes ela ficou muito inquieta porque a imagem desaparecera. Brinquei com ela: ''Quem sabe Jesus saiu da tela e entrou em seu coração...''
Dois mil anos são transcorridos, e em todo esse longo período os homens não souberam decifrar o significado da missão terrena de Jesus e o real sentido de suas palavras. Ele falava por parábolas, e não o entenderam. Mas não por causa da narração alegórica e sim porque as mentes não estavam abertas para o pleno entendimento.
Então, ao invés de tê-lo como um mestre, passaram a adorá-lo. Entronizaram-no nos templos, e outra coisa não fizeram senão reverenciá-lo. Elegeram-no salvador e repositório de súplicas e lamentações. Jesus nunca se proclamou um salvador, mas veio dizer aos homens que cada um encerrava em si a divindade, tal qual ele. Que todos tinham em si o poder crístico, um atributo que em Jesus alcançava o grau de plenitude. Eis que seu espírito procedia das mais altas esferas celestiais, para onde haveria de retornar, depois de seu voluntário ministério no ''abismo'' da tridimensionalidade carnal.
Cristo não era uma pessoa e não é um ser. Cristo significa um grau, uma condição. Que está latente, também, em todos os homens. ''Cristo em vós, a esperança da glória.'' Daí o reconhecimento da idêntica divindade de cada um de nós. Quando se fala de Cristo não se fala de Jesus. Cristo é o Logos, o Verbo, a Mente Divina. Mas é certo que em Jesus estava a consciência plena e o poder crístico completo. Em certos momentos Jesus era o Cristo puro. Era quando falava pelo próprio espírito.
Jesus, filho de Deus diz-se. Assim como todos nós, filhos de Deus. Ou o Mestre nazareno não viria nos dizer que éramos, ele e nós, irmãos, com um único pai. Naturalmente que os termos irmão e pai figuram aí simbólicos, a significar uma única criação e um único criador. Jesus nos revelou: ''Aquele que crê (...) fará as obras que eu faço, e ainda maiores.'' Esta sua revelação, uma das pedras angulares do seu ministério, está entre as partes não compreendidas pelos homens por isso não tocada pelos pregadores embora tenha encontrado abrigo entre as doutrinas esotéricas.
Quando Jesus disse que deveríamos segui-lo, porque ele era o caminho, quis dizer que aceitássemos nossa condição de seres divinos, tão iguais a ele, e seguíssemos os seus ensinamentos; que fizéssemos igual a ele. Quando disse que era a verdade, quis dizer que ele simbolizava a verdade única, a da unicidade do homem e Deus, sem separatismo. E ao dizer que era a vida, certamente não se referia à vida na fisicalidade, mas à Grande Vida, à eternidade. Ele nunca apontou para si mesmo, mas para o caminho a seguir.
Porém, o homem preferiu não admitir o que ele (homem) é em sua essência. Prostrou-se em adoração a Jesus e o converteu em salvador, ao invés de seguir a orientação de suas palavras e suas revelações. Nunca reconheceu sua própria divindade, da qual Jesus tanto falara, e ainda hoje nos fala, em suas mensagens que nunca cessaram. O homem também preferiu isolar Deus, remetendo-o para o Céu, e apenas debruçar-se perante ''ele'' em atitude de contemplação e súplica. Não aprendeu que melhor seria conversar com Deus... Que, afinal, não está ''lá no alto'' mas tão perto, porque dentro dele mesmo.
O Cristo em Jesus é a Mente Divina em Jesus, o Verbo, que está também em nós e se faz carne enquanto habita em nossa temporária fisicalidade. Tudo a significar que o poder de Deus está também no homem-ser, no homem feito ''à sua imagem e semelhança''. Não deve, pois, apequenar-se o homem, pois assim fazendo apequenará Deus na concepção de sua mente.
Jesus homem adquiriu bem cedo a consciência de seu estado de divindade, e passou desde menino a nos dizer que éramos iguais a ele. Ou não teria dito que ''o Reino de Deus está em nós''. Jesus nunca demonstrou que era um salvador, mas falou da divindade do homem. Nossos infernos são nossas atribulações, atuais e eventualmnte porvindouras; nossos pecados são nossas desinformações (e pecado, na tradução literal grega, quer dizer nada mais que encobrimento, treva, ignorância).
Por que não ouvir Jesus como um mestre, no lugar de adorá-lo? A fé é a crença em nosso próprio poder, que é o poder imanente de Deus em nós. Jesus quis que compreendêssemos isso. Porque a partir dessa compreeensão, compreenderemos tudo, e também o que está escrito... eis que pela via inversa os homens só farão criar religiões e mais religiões, cada qual segundo um entendimento.
O Mestre nazareno, e outros tantos, do passado e do presente, continuam a nos revelar e nos reensinar coisas maravilhosas, mas a maioria prefere a leitura de um único livro, quase inteiramente incompreendido. E assim se conservam apenas como adoradores, perdendo a oportunidade de aprenderem a ser os próprios agentes de sua ascensão espiritual. Jesus está dizendo que façamos isso. Em outras palavras, descer do seu lombo, caminhar com ele, mas com as próprias pernas. Porque aquilo que ele fazia foram suas palavras nós também podemos fazer, e ainda melhor...
O Cristo é a mente divina que estava em Jesus; o Cristo é a mente divina que está no homem. ''Filho unigênito'' não quer dizer Jesus, nem sua individualidade espiritual, mas o Cristo (o poder) que desceu com ele e nele. Cada ser é uma expressão da vida de Deus. Se o Cristo nele já o sabia, Jesus acabou descobrindo em si a divindade do homem. E isto lhe aconteceu bem cedo. E então passou a dizer aos homens (e ainda hoje o faz) que também éramos dotados dessa divindade e não diferentes dele. Falsos profetas são os que, dentro dos templos, insistem em negar nos fiéis esse atributo.
Imaginando-se pecador e pequeno ''diante de Deus'', e entregando tudo ''nas mãos de Jesus'' como dizem os fiéis, seguindo a orientação dos seus predicantes o homem imobiliza-se e permite que seu próprio poder vá se atrofiando. Não é adorando Jesus que irá encontrar a salvação (entendendo-se como tal o entendimento, afinal, da verdade), mas acreditar no ensinamento dele de que encerramos em nós a divindade. A partir daí, tudo o mais virá por acréscimo.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina





