Walmor Macarini
O belo além da aparência
O belo está so bretudo naquilo que não vemos. É bela a mani festação de uma flor que desa brocha, mas a beleza maior re side no princípio que a faz desabrochar. Um bebê que nasce é especialmente lindo para a mãe, e o é para todos que têm sensibilidade, mas todo o mistério anterior ao seu nascimento é, infinitamente, mais maravilhoso.
É fantástico o nascer do sol, a sua trajetória, o seu recolhimento na linha do horizonte ao final do dia, porém o mais belo é o que não percebemos, que é a inteligência que faz com que todos os astros e planetas existam e girem harmoniosamente.
É fascinante o emergir de uma plantinha rompendo a terra com a aparente fragilidade das tenras folhas, mas há uma beleza maior no indescritível mistério que faz a semente germinar, cada qual segundo sua espécie. No enigma da semente encerra-se o mistério da vida.
Se o fenômeno da germinação é o resultado da junção da semente com os nutrientes da terra, a água e o calor, há algo indecifrável e extraordinariamente mais belo que é o poder subjacente que faz a semente transformar-se numa planta, florescer e gerar frutos com sementes idênticas, que se reproduzirão pelo mesmo processo.
Uma minúscula semente encerra dentro de si uma floresta, que poderá gerar outras mais e povoar de plantas o universo inteiro... Tudo isso numa única semente. Um fenômeno simplesmente genético dirão alguns. E quem rege a genética?! O maravilhoso está sobretudo naquilo que não vemos mas que está implícito e inquestionável. Não precisamos entender como. Basta-nos a consciência de que algo misterioso reside ali.
Se abrimos a semente não encontraremos dentro dela a planta, nem a flor e nem o fruto, mas eles estão lá, com absolutíssima certeza. E quem os colocou ali?... Se abrimos o ramo de uma roseira para encontrar a rosa, não a acharemos, no entanto ela está lá. Bastará deixar que o processo siga o seu curso, e no tempo certo a flor se apresentará.
O que faz que, do ventre materno, brote um ser, à imagem e semelhança da mãe? Não será, certamente, um mero fenômeno da genética humana, mas se achamos que é apenas isso, ficamos devendo a resposta sobre o inventor desse sistema e a sua intrincada engenharia.
É belo o resultado final da obra da natureza, mas a beleza maior reside na origem primeira de todas as coisas, e esta nenhum cientista terreno conseguiu explicar. Einstein citava um único autor de tudo: a natureza divina, conforme lhe revelava a intuição, sua maior conselheira.
Devemos olhar as coisas também com os olhos interiores, que são profundos e alcançam o infinito, e muitas vezes olhar com os olhos do coração. O exercício de buscar a beleza que se oculta nas coisas vai refinando nossa percepção e fazendo-nos enxergar o real sentido de tudo e encontrar a explicação para os fenômenos da vida, palpáveis e implícitos.
Assim, o que se apresentava aparentemente difícil, torna-se fácil; passamos a viver em estado de oração, nossa mente entra em frequência mais alta e sintoniza-se com o universo real, que é o das coisas impercebidas que não são vistas, mas sentidas á e não apenas o mundo das imagens.
Dessa forma, o mundo passa a ser visto sob outro paradigma, as próprias coisas manifestadas assumem outra perspectiva ante nossa mente e nossos olhos, e ganham ainda mais beleza. Ingressamos num processo de refinamento da consciência e ficamos mais sensíveis e delicados. Vemos então que nós próprios somos um milagre; que a vida de todas as coisas é um milagre, no sentido que se dá àquilo que se atribui como sobrenatural embora o sobrenatural seja, na verdade, o natural. Eis que o natural é o invisível, pois tudo o mais são seus reflexos.
O desabrochar de uma flor, o rompimento de uma semente para dar lugar à vida latente nela, uma criança que emerge do âmago da mulher para mais uma etapa do ciclo da vida, nada mais são do que manifestações de uma inteligência que antecede e preside todos esses fenômenos.
Nada no universo é dissociado, porém tudo inerente e imanente. O exercício de identificar o mistério presente em todas as coisas, ''do céu e da terra'', nos conduz ao despertar espiritual e ao estado de consonância com a realidade invisível, capaz de nos levar a fantásticas descobertas da alma.
Não temos, pois, que lutar contra os supostos males. Basta visualizar a perfeição, que é afinal o princípio que governa tudo. Encontrar as coisas boas nas pessoas, e em nós, é também uma forma de contemplar o belo invisível. Aquilo que nossos sentimentos e nossa visão interior irradiam alcançarão também os circunstantes, e assim ampliamos esse campo de ação e envolveremos um maior número de pessoas.
Se olhamos para alguém, esse alguém será impelido a olhar para nós. Se observamos a magia da vida com a profundidade dos nossos olhos interiores, olhamos para Deus. E aí veremos que ele não tardará em também olhar para nós.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina





