Ensinar sem obrigação de fazer


Muitos conhecem a cena do filme em que o pai alcoólatra aconselha o filho adolescente a que se afaste da bebida. Ninguém com maior autoridade do que ele para esse aconselhamento. Fazer o que ele dizia e não o que ele fazia. A lição era o que importava, já que o exemplo, no caso, não tinha valor algum.
Se uma pessoa diz palavras sábias, não temos que nos preocupar se ela própria não as segue. Bastam as palavras.
Se alguém nos indica o caminho e, através dele, chegamos onde queremos chegar, não importa se ele segue por outro rumo.
Não temos que exigir que o mestre siga os ensinamentos que prega, bastando absorvermos seu ensino.
Aquele que nos dá orientação talvez não se preocupe com ele mesmo, então não devemos esperar que dê exemplo pessoal.
Se o instrutor nos mostra como fazer, não temos que olhar se ele faz o mesmo.
Um mestre pode nos ensinar pelo seu próprio exemplo, mas esta não é uma obrigação que ele nos deva.
Não temos que policiar o comportamento daquele que, pela sua sabedoria, queira mais servir do que se servir.
Quem nos passa ensinamentos de como obter riqueza pode não ser rico, porque talvez não deseja sê-lo.
O médico, que a tantos cura, pode não cuidar da própria sa© úde, mas isto não inqualifica a sua competência, o seu trabalho e a sua missão.
Quem nos ensina fórmulas de bem-viver pode não estar se preocupando consigo mesmo e viver de maneira diversa.
Aquele que nos acena para os males de um vício pode ser alguém que esteja envolvido nele, e isto não anula a validade de seu aviso.
Quem nos traça o percurso da caminhada menos tortuosa é porque a conhece e certamente deseja que não tenhamos tropeços, mas não devemos censurá-lo se ele resolver seguir por outra direção.
O que nos alerta para os perigos da estrada pode ser um descuidado, mas isto não invalida a sua advertência.
Importa que aprendamos a boa lição do mestre sem olhar o que ele faz, ou se faz o contrário.
Aproveitemos a oportunidade do aprendizado, porque isto é o que conta.
Não vamos inquirir o jardineiro que cuida das nossas flores se ele não quiser ter o seu próprio jardim.
A costureira que confecciona belos vestidos talvez não deseje, ela própria, ser elegante. Isso não deixa menos primorosa a sua arte.
Avaliemos o ensinamento e não aquele que nos ensina.
Muitos dos que se doam são displicentes consigo mesmos, e isso não tira a autenticidade de sua doação.
O que fabrica boas sandálias talvez goste de andar descalço.
A cozinheira que faz boa comida pode não desejar servir-se dela, mas isso não fará o prato menos apetitoso.
Não temos que esperar que o bom arquiteto tenha a mais bonita casa. Basta-nos apreciar a sua criação.
Nem devemos cobrar do homem rico que viva em opulência, segundo padrões que imaginamos, porque talvez ele deseje, com sua riqueza, apenas semear mais riqueza e comprazer-se em ver mais pessoas desfrutando dela.
Também não temos de questionar por que uma pessoa rica precisa de tanto dinheiro, porque talvez ela não esteja precisando da forma que desejamos que ela precise.
De um homem abastado, exigimos que seja também caridoso, mas não exigimos isto do pobre.
O ensino, pelo exemplo. Este é, sem dúvida, um caminho. Mas não tem que ser necessariamente assim. Não temos que exigir da pessoa que, além do ensino, ainda nos dê exemplos.
O jogador Pelé não tinha a obrigação de ser, também, um bom homem, não obstante o seja. Bastava ser um bom jogador. Lideranças negras norte-americanas queriam que ele fosse um defensor mundial da causa dos negros, mas ele era um jogador de futebol e não um líder de questões raciais. Ainda queríamos mais dele!?
Há homens rudes que são boas pessoas, incapazes de um ato indigno. Não temos que exigir que, sendo bons, eles sejam também delicados. Basta a sua bondade.
Também não devemos fazer cobranças pelo fato de nossos pais e antepassados nos haverem legado o mundo que aí está, com coisas boas mas também muitos problemas.
Façamos, agora, a parte que nos cabe, e assim seremos mais felizes e construiremos as condições de uma vida melhor para os que virão.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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