Nós brasileiros temos vivido tempos de angústia, parecendo que todas as coisas vão mal. Nos agarramos ao futebol – uma das nossas deliciosas ilusões – vestimos a camisa verde-e-amarela e calçamos chuteiras, mas isto também resulta muitas vezes em amargas frustrações. Como acontece por estes dias.
Por todas as coisas desagradáveis que nos acontecem, começamos por buscar fórmulas de eliminar esses males. Naturalmente que eles são relativos. Nosso desencanto pelo insucesso do último jogo da Seleção só foi um mal para nós, porém um bem para os vencedores.
Embora bem e mal não existam – eis que tudo o que nos ocorre são apenas resultados – vamos admiti-los, apenas provisoriamente, para dar consistência a estes escritos.
Por que nos ocupamos de combater o mal se melhor seria promover o bem? Temos nos preocupado pouco com esta segunda opção. O mal, nós o combatemos com muita ira e revolta, o que é natural se é da nossa índole e não podemos conter esses ímpetos. Afinal, em nossa condição carnal somos humanos. Como humanos são nossos cinco sentidos, nosso intelecto, nossa personalidade, enfim nossos egos.
Mas são eles que têm guiado nossa vida, pois temos permitido isso, e assim eles acabam sufocando a voz interior de nossa intuição, que é o nosso mais sábio sentido. Se ao invés de só pensarmos em meios de eliminar o mal, não encontramos o caminho mais curto e menos pedregoso que é promover o bem.
Soa algo imposto essa idéia de fazer coisas boas, como se fora um código moral, uma sistemática obrigação. Não é nada disto. Será apenas uma simples mudança de hábitos. E a partir de certo tempo essa nova conduta passará a ser espontânea. Veremos que aí tudo passará a conspirar a nosso favor e a favor de mais gente.
E o que é o bem? Diríamos que é dizer, pensar e fazer coisas que nos agradem e que agradem a mais alguém; que semeie alguma forma de alegria e felicidade. A existência do mal nos dá a medida do bem, mas temos perdido muito tempo em propor fórmulas – quase sempre impregnadas de indignação – para combater o mal, nosso e dos outros, e entorpecidos por essa obstinação deixamos de praticar o bem.
É certo que, se apenas maldizemos a escuridão, ela persistirá, mas se acendemos uma vela fazemos duas coisas ao mesmo tempo: eliminamos a sombra e criamos a luz. Fiquemos, portanto, vigilantes ante nossos pensamentos, nossas palavras e nossos passos.
Experimentemos, ao menos por um dia, abandonar idéias de apontar males e, na contrapartida, praticar mais coisas boas para nós próprios, para os que convivem em nosso círculo e também para os que estão mais além, se possível. Melhor ainda se for para a humanidade inteira.
Não é preciso que ignoremos a existência do mal, mas vamos passar ao largo dele, apenas reconhecendo-o e observando sua natureza, mas sem julgamento. E redirecionar nossos momentos para a prática de algo mais edificante. Que pode ser uma coisa tão simples como um cumprimento amável.
Não precisamos fazer um plano ou adotar um manual de prática do bem, mas simplesmente deixar as coisas fluírem livremente, porém atentos para cada instante de nossa vida, modificando o sentido de certas coisas para que resultem em benefício de alguém ou de algo melhor para todos.
O ‘‘pecado’’ não é incorrer em algum mal, porém desperdiçar a oportunidade de praticar o bem. E a oportunidade se manifesta a todo instante. Basta ficarmos vigilantes.
No caso dos nossos governantes, os consideramos um mal, porém temos feito pouco ou nada para elegermos bons políticos e policiá-los depois de eleitos, para que resultem eficientes. Pensamos que apenas cassar ou colocar na cadeia um político corrupto seja a melhor solução, porém a mais sábia é produzir homens públicos honestos.
Uma religião, ao invés de atacar o que julga um mal na outra, deveria ela própria fazer-se boa, e assim se imporia não pela crítica, mas pelas próprias idéias. Os caminhos para a prática do bem são menos tortuosos que os que conduzem ao mal.
Idéias muito arraigadas de buscar punição para tudo e para todos, ao invés de exaltar a justiça podem estar contemplando sentimentos de vingança. Mentalizações carregadas de ódio contra os males os disseminam ainda mais, criam vigorosa corrente negativa e mais os robustecem.
Já pensamentos bons, palavras e ações boas propagam vibrações da mesma qualidade e intensidade e inundam a atmosfera dessa onda benfazeja. Semear idéias de combate ao mal é um processo cansativo e estressante, com resultados inócuos no mais dos casos.
Uma boa palavra dirigida a alguém é sempre um bem. Varrer de vez de nossa mente e de nosso vocabulário a maledicência é o melhor dos bens que fazemos para nós próprios e para aqueles que são poupados de nossos dardos envenenados. Um gesto, uma ajuda, um incentivo, irradiam sucessivas vibrações benéficas, como os círculos que se propagam quando jogamos uma pedra nas águas mansas de um rio.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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