Deve-se adotar a leitura da Bíblia nas escolas? Questão polêmica. No Paraná, por iniciativa de um deputado-pastor, a Assembléia Legislativa aprovou e o governador acaba de sancionar lei que introduz a leitura desse livro no currículo do ensino médio e fundamental. Há, quanto a isso, divergência de opinião entre as religiões. Pelo receio de que as aulas se transformem em pregação religiosa. Desejam, então, também a introdução de outros livros.
Se, da Bíblia, for só a simples leitura, isto acrescentará pouco aos alunos, e o horário dessa disciplina acabará se transformando em momento de oração e glorificação. Como ocorre nas igrejas quando se abre o livro. Nada de errado nisso, mas os estudantes farão perguntas sobre outras questões. Quererão, por exemplo, que se decifrem as parábolas.
Se a opção for pela parte histórica da Bíblia, será preferível buscar algo mais digerível e de mais fácil compreensão, ou a rapaziada da classe não prestará atenção. Os mestres acabarão optando pelas partes mais compreensíveis, que são as que tratam dos passos e das palavras de Jesus, dos milagres, das profecias, dos ensinamentos morais, justamente os pilares das religiões tradicionais do Ocidente. Porém, há partes muito instigantes nesses ensinamentos, que as Escrituras não explicam.
A Bíblia se compõe de mais de setenta livros, de autores e épocas diferentes, alguns com diferenças de milhares de anos entre si. Se o estilo literário é o mesmo, desde Gênesis ao Apocalipse, isso só vem em demérito da fidelidade dessa condensação quanto aos textos originais, pois demonstra que a linguagem foi modificada e unificada. E sobre esse texto fizeram-se, ao longo dos anos, outras alterações. Ademais, há Bíblias que têm mais livros que outras.
Como seriam o conteúdo e a linguagem de cada um dos setenta livros que compõem as Escrituras? Como seriam os originais dos pesquisadores João, Mateus, Lucas e Marcos? Dos Apóstolos? Qual seria a íntegra e a forma dos escritos do Gênesis, do Êxodo, das Crônicas, dos Cantares, dos Provérbios, do livro de Isaías? De todos os demais? Quem explica o Apocalipse? O que é palavra de Deus e o que é palavra dos homens? O que foi suprimido e o que foi adicionado? E o que foi modificado e o que não foi compreendido? O aramaico (língua básica de Jesus) era muito difícil de ser entendido pelos outros povos, e nem os hebreus e nem os gregos a dominavam bem.
Nas salas de aula haverá os indiferentes e os que irão pedir melhores explicações. Por não estarem dentro de um templo, onde ocorre o monólogo do pregador e não o diálogo com os fiéis, na escola os alunos terão a liberdade de fazer perguntas. E alguém terá que saber respondê-las, ou o ensino e a leitura serão falhos. Os jovens não querem doutrinação, mas informações e esclarecimentos. E quem saberá dá-los, tratando-se de um livro hermético e cheio de simbolismo como a Bíblia? Será preciso entender-lhe o sentido muitas vezes figurado das palavras.
As Escrituras têm de tudo: ensinamento, revelação (entendida de várias formas), mistério, sabedoria, história, ética, moral, fantasia, trechos lascivos, poesia, contradições, verdades distorcidas e verdades não contadas. Em boa parte – justamente pelo hermetismo – é um texto cego a guiar outros cegos... E aí começam as interpretações e os fanatismos, porque cada qual entende de uma maneira e faz até guerras por isso.
As igrejas dominantes do Ocidente, embora rivais e em guerra declarada pela disputa de fiéis, têm idêntica interpretação da Bíblia, com pequenas variações, mas as correntes denominadas esotéricas a lêem sob outro prisma. Jesus, hoje, está explicando coisas que os homens não entenderam de suas palavras.
Todos estes são pontos que os escolares irão questionar. E, nos quadros do magistério, ninguém saberá dar certas respostas. Irão, quem sabe, chamar os teólogos. Mas estes acabarão fazendo doutrinação, segundo os conhecimentos que têm e que nada mais são que os que lhe passaram as escolas das respectivas religiões.
Então, se sobram discípulos ávidos de aprender – não só nas escolas mas também sob as abóbadas dos templos – escasseiam os mestres. Falamos, sempre, das religiões predominantes do mundo ocidental. Decorar versículos e conhecer o conteúdo extrínseco das Escrituras pouco significa se não for compreendido o real sentido das palavras. Se uma parte da Bíblia pode ser entendida de forma linear, há uma busca também pelo não decifrado. Que se não é para não ser entendido, não deveria estar ali.
Se um aluno pergunta o que fez Jesus dos 13 aos 30 anos ninguém saberá responder, porque não há uma vírgula sequer a respeito, na Bíblia. A não ser que ele foi crescendo em anos e em sabedoria... Esse tempo foi metade de sua vida e quase toda sua idade adulta. Muito do que ele ensinou dos anos 30 a 33 já basta, mas um jovem escolar gostaria de saber onde estava o mestre nazareno quando tinha 18 anos, 25 anos. E deve questionar por que omitiram isso nas Escrituras.
Claro que se sabe porque ocorreu tal omissão, mas isto só está no que se pode nominar de Novíssimo Testamento, cuja juntada de livros e testemunhos ainda não se fez. Só bastará juntá-los, como alguém fez um dia com o Velho e com o Novo. Será interessante conhecê-los, para melhor entender até a própria Bíblia. Muitos já o estão fazendo.
Então, junto com a leitura da Bíblia nas escolas, deve-se levar também outros livros. E que os pais de alunos permitam que os filhos tomem conhecimento do conteúdo deles. Luzes novas seriam lançadas e muitos pontos obscuros – que aprisionam quase a humanidade inteira em tantas aflições – seriam esclarecidos.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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