Nos tempos do calhambeque de Roberto Carlos falava-se do cara legal e da garota papo firme. É uma brasa, mora – dizia-se sobre algo espetacular. Se a coisa estava bem, era barra limpa, e o contrário barra suja. Isto derivaria para sujou, tá uma barra, a barra tá pesada. Erasmo Carlos criaria o tremendão. Nos tempos de Uri Gheler, para qualquer coisa repetia-se a palavra de ordem desse entortador de colheres: funciona!
Depois foi o tempo de ver o panorama e dar uma olhada no ambiente. E assim viemos empregando frases que, com poucas palavras, diziam muita coisa. Dar a volta por cima, petição de miséria (de quem estava muito mal), complexo de inferioridade, necessidade de afirmação, mania de grandeza, ego ferido, carência afetiva, sacal, purgante (de um inconveniente), carne de pescoço, doidão, muito louco, bicho grilo, chato de galocha, big boss, big shot, mais valia, custo-benefício, muita mão-de-obra, sujeito pra frente, prafrentex, high tech, meio devagar, devagar parando, da hora (no sentido de legal), o caminho é por aí, chegar lá, ligado, plugado, antenado, linkado, ligadão, baixo-astral, não tá com nada, tá com tudo, caiu a ficha, tá calçado, tá montado, não tá com esse ibope todo, nada a ver, tudo a ver.
Quem não conhecesse essas expressões, tava por fora. Se liga, meu! Mulher bonita era avião, locomotiva, uma máquina. Menina era mina. A comunidade underground passava uma energia, dava uma força. Os homens (imitando os galos), quando estavam a fim, arrastavam asas por fulana de tal. Quando as coisas não estavam bem, soava inteligente dizer que era preciso tomar uma providência, que assim como está não pode continuar. Que país é este? – perguntava-se. Fulano tem fair play. Tem jogo de cintura. Para tudo se falava do jogo de cintura. Depois viriam a ginga e o gingado. Viver no bem bom era o dolce far niente. Entrar em encrenca era meter-se em palpos de aranha (que o vulgo diria papos).
Não quero me machucar – diziam (ou ainda dizem) as mulheres temerosas de envolver-se em casos amorosos pouco seguros. E em tempos de paz e amor dizia-se que era preciso fazer o amor e não a guerra. Falar de alguém por fora, desligado, nem aí, era que estava pra lá de Bagdá ou além de Marraquesh. Bárbaro, foi 10, tá na dele, vai que é mole. Qual é a tua?, não vem não, te manca, corta essa, vai caçar tua turma, esta não é minha praia, tá enturmado, é da tchurma, chega no pedaço, tchau e bênção, vai te catar, ôrra meu, me ferrei, se melhorar estraga, se melhorar vira festa, intriga da oposição, grana pega, nota preta, nota comprida, juntar os cacos, põe na conta da sogra, a viúva paga, tou um bagaço, tou a mil, pagar o pato (agora é ficar com o mico), batata quente, botar a cara pra quebrar, vê se me esquece, vê se estou na esquina, não é nenhuma Brastemp, tô fora, tô nessa, tá uma zorra, esquentou o tempo, picou a mula, deu no pé, virou sorvete, foi com tudo, invadiu meu espaço, sentiu firmeza.
Em linguagem chula, nos tempos do café, mulher bonita era peneira 18 e nos tempos do boi virou cabeceira. O que era bom era jóia, um brinco. Havia a gente fina e aí a coisa descambava para o vulgar de que fulano era gente muito finíssima. Se a mulher era valente, era uma guerreira. Fulano tem muita cancha, muito chão, muita estrada. Deixa quieto, come quieto. Mulher experimentada tinha muitos anos de janela. Dizia-se pés no chão, cabeça no lugar ou cabeça nas estrelas. Papo-cabeça, fazer a cabeça, cuca fresca, foi um sufoco, não esquenta. Qualquer curso de executivos ensinava que era preciso ser um agente de mudanças. Era o tempo dos head hunters, de staff, alavancagem, entourage, tour-de-force, esforço concentrado, espírito de equipe. A gente do povo dizia que era muita areia pro meu caminhãozinho. Havia o sujeito bem resolvido ou mal revolvido, o bom partido, o bundão, o bocomoco. O que era extravagante era psicodélico.
Não faz marola, deixa de onda, dormir no ponto, fora da realidade, tá boiando, tá viajando, devagar com o andor, puxar o tapete, dar uma rasteira, pelo andar da carruagem, mais perdido que cego em tiroteio e que cachorro que caiu da mudança, mais quebrado que arroz de terceira. Luz no fim do túnel. Houve o tempo da amizade colorida, da cara-metade, da sarna pra se coçar e de arrumar pra minha cabeça. Fulana esnobava, fazia gênero. Fulano era um cara bacana. E assim se pintou e bordou e se pintou o sete, e se deitou e rolou e se morou na jogada e se botou a boca no trombone.
Chega mais, segura essa, aguenta a barra, tá na pior, montou num porco, mandou ver, concordo e assino em baixo, dar milho pra bode, marcar bobeira, tá sem bala (sem dinheiro), cara genial, tá com tudo, pegou o bonde errado, dançou, caiu do cavalo, tá com parafuso frouxo, faísca atrasada, pavio curto, amigo do peito, cara enrustido, beleza pura. Ajoelhou tem que rezar. Algumas frases temporárias confundem-se com expressões idiomáticas, estas de maior durabilidade. Por bom tempo se falou da modernidade, isto ficava bem inserido no contexto e a nível do momento era politicamente correto. Não deu química, pintou um clima, rolou um papo. Pra ninguém botar defeito.
Recentemente descobriu-se a recorrência. Agora deu enter e se alguém não serve pode-se deletá-lo. Fala-se do ficar e das popozudas, do viés para baixo e do viés para cima, que fulano não fez o dever de casa. Tá tudo dominado. Temos insights. E o novo novíssimo é agregar valores. Bastou um discurso ou um escrito que lá vem o agregar valores. Não demora que o convite para o exercício do amor a dois será assim: ‘‘Que tal a gente dar uma agregada de valores?’’
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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