Minha amiga fumava muito, e os perfumes caros que usava, em grande quantidade – um frasco a cada quinze dias – misturavam-se com o odor do hálito de tabaco. Se o perfume conferia-lhe feminilidade, o cheiro curtido do cigarro transformava aquela bela mulher numa presença insuportável. À distância de dois metros, em recinto fechado, sentia-se o bafejo.
Fiz-lhe um irônico gracejo: se ela deixasse de fumar eu lhe daria de presente um isqueiro de ouro. Disse-lhe que era por causa do mal que o fumo lhe causava. E pelo hálito. Ela ficou chocada. Não pelo mal, mas pelo hálito. Porque nunca ninguém lhe havia dito isto. Para não magoá-la, poupavam-na. Eu não me importei, pois era seu amigo. Só amigos muito íntimos – e verdadeiros – podem dizer coisas assim a uma mulher.
Eu, não-fumante de nascença, tinha o isqueiro – que era folheado a ouro – porque o ganhara num desses sorteios beneficentes. Não sabia que utilidade dar-lhe, mas a verdade é que ele viria a servir para afastar do vício a minha amiga. Nunca mais ela fumou, e ainda conserva o isqueiro, sabe-se lá aguardando a oportunidade de presenteá-lo a algum fumante, mediante a mesma condição que um dia eu lhe fizera. Hoje ela só tem aroma de mulher. Sente-se o frescor de sua hálito puro quando ela deliciosamente conversa.
Poucos certamente sabem, mas hoje – quinta-feira, 31 – é o Dia Mundial Sem Tabaco, criado não sei por quem para incentivar os fumantes a abandonarem o vício. Muitos eventos de conscientização irão acontecer, e os veículos de comunicação do mundo inteiro certamente falarão dos malefícios do tabaco. Por isso estou me associando a eles nesta cruzada.
Se os homens amassem de verdade suas namoradas, suas esposas (falo de amor, não de paixão), se amassem a si próprios e aos circunstantes (que são obrigados a tragar suas baforadas), deixariam de fumar neste instante. Se as mulheres amassem de verdade seus namorados, seus maridos, e amassem a si próprias e aos que as cercam, abandonariam de vez a barda de pitar.
Se é certo que é nosso espírito que comanda a vida pulsante em nós, o corpo físico que temos é um santuário, que precisa ser preservado, pois temos um compromisso com ele. Sacrificar o corpo é autoflagelação. É interromper a trajetória e o experimento do espírito. Morrer em consequência de uma doença provocada pela nicotina é suicídio. Porque suicídio não é apenas pôr fim à vida repentinamente, mas também a morte lenta, planejada e consciente, como a de poluir os pulmões com o veneno do alcatrão e contrair câncer. O alcatrão é aquela substância negra e gosmosa com que se asfalta as rodovias. Rude dizer, mas fumar é como ingerir diariamente pequenas doses de piche asfáltico.
Números da Organização Mundial da Saúde (OMS) dizem que 30 milhões de mortes, pelo consumo de tabaco, poderão ser evitadas nas próximas duas décadas se os adultos e jovens deixarem de fumar, ou não aderirem ao vício. Entenda-se 30 milhões de suicídios a menos. Mostram os estudos que a nicotina transforma a fisiologia do cérebro. Faz mal aos que fumam e aos que não fumam, porque estes são obrigados a absorver a fumaça alheia.
É do Instituto Nacional do Câncer a informação de que os fumantes passivos (os não-viciados, mas que não podem se livrar das baforadas dos outros) têm mais risco de contrair câncer no pulmão, porque essa fumaça contém três vezes mais nicotina e 50 vezes mais substâncias cancerígenas. Eis que não passa pelo filtro do cigarro e é absorvida diretamente. Então, ar puro, sem fumaça de cigarro, é uma questão de defesa ambiental, e naturalmente de saúde pública.
Minha amiga do isqueiro não abandonou tão facilmente o vício. Fumava um maço por dia. Vinte cigarros. Sugeri-lhe que, na primeira semana do racionamento, eliminasse um e fumasse 19, na semana seguinte 18, na outra 17, e assim sucessivamente. Passados cinco meses ela fumava apenas um cigarro por dia. O organismo já estava quase limpo. Afinal, aconteceu o apagão da derradeira pitada. A partir daí passou a sentir um melhor sabor dos alimentos e das bebidas, a ter convivência mais feliz com as pessoas e a aumentar sua auto-estima. E assim mais bonita se fez. Com aquele hálito aromatizado das noites frescas de outono.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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