Walmor Macarini
O que Deus uniu o homem não separe. Nada a ver com o casamento. O celebrante emprega este termo, na cerimônia conjugal, porque precisa de palavras para rechear sua prédica. Uma união não é um compromisso que precisa ser para sempre. Posto que é uma invenção do homem.
De que serve a assinatura no papel que oficializa o casamento? Para legitimar os filhos do casal? Mas estes não deixam de ser legítimos se não houver papel e assinaturas. Seria então para garantia da divisão de bens? Isto pode ser. Então, o papel passado não é testemunho de amor e união, mas de desconfiança. O que é meu bem pode depois resultar em meus bens.
Bom se um casamento durar, mas um homem e uma mulher nunca devem dizer que perderam seu tempo se a união conjugal não deu certo, eis que ambos usufruíram do experimento e por isso não houve perdas. Se algo houve, só pode ter sido um ganho, para os dois.
Quando alguém diz que a união com o cônjuge foi um atraso de vida, não considera que só o advento dos filhos é um grande bem. O simples experimento dessa união é um bem. Quem garante que, em outra relação, não haveria idêntica perda de tempo?
Na vida não acontecem nem ganhos e nem perdas. Acontecem resultados. Cada qual deve assumir responsabilidade pelos seus atos, não significando que duas pessoas que se desejaram e depois passaram a odiar-se tenham que viver juntas. Os homens criaram regras e a elas se escravizaram.
Os casais mais velhos nossos avós e nossos pais que em alguns casos tiveram que se suportar mutuamente durante toda uma vida, porque a tradição impedia que alguém manifestasse descontentamento, costumam questionar os filhos que se separam e geralmente indagam por que não pensaram antes de se casar. Como se isto fosse possível. No dia em que soubermos o que vai nos acontecer amanhã, o mundo se transformará num paraíso ou num grande tédio.
A vida é um experimento constante. Cada qual segundo sua finalidade. Há filhos de pais bem casados que não se deram bem no casamento. Então, exemplos não bastam. Bons e maus exemplos podem servir ou não servir de nada. Ao requerer documentos, uma união matrimonial converte-se num contrato de risco.
Quem se une deve agradecer-se mutuamente pelo experimento; quem se separa deve ter idêntico comportamento. Porém, o que acontece no mais dos casos, após uma separação, é que os casais passam a agredir-se. A ganância na divisão de bens manifesta-se e torna-se ridícula.
Se alguém nos tange, deveríamos agradecer-lhe pela oportunidade de nos estar pondo à prova e de podermos colocar em prática o exercício da compreensão. Os qualificativos que nos impingem não deveriam nos preocupar, porque as palavras não nos transformam naquilo que encerram, a menos que as absorvamos como verdadeiras. Do contrário, devemos entendê-las apenas como palavras, e continuaremos intactos.
Se alguém diz que somos delinquentes e não somos, nada se alterou em nossa integridade; se diz que somos e realmente somos, então é a verdade e da mesma forma nada foi alterado. Toda pessoa que agride é uma pessoa insegura. Num casamento, nunca se ganha alguém, pois as pessoas não são propriedade de outrem, e na separação não se perde quem estava conosco, eis que não tínhamos dele a posse.
O sentido de o que Deus uniu, o homem não separe, é que somos uma só coisa em nossa substância essencial, e o fato-homem uma condição temporária não quebra a unicidade do todo. Assim como as águas retornam às águas, o ser retorna à plenitude, não obstante preservar a sua individualidade. Como a gota é o oceano, e o oceano é a soma das gotas.
O que nossos antepassados nos passaram como norma pode não significar o modelo ideal do bem conviver e do bem viver. A tradição pode ser apenas a repetição de velhos equívocos. Na verdade, nem se deveria adotar palavras como erros e acertos, porque eles não existem. O que existe são resultados.
Mas se quisermos dar um qualificativo para certas práticas de nossa vida e suas consequências, erro é fazer aquilo que não nos serve, e acerto o inverso. E como distinguir isto? Há coisas que não gostamos de fazer, e como tal elas não nos servem. Logo, fazê-las é um erro. Mas se fazemos algo que gostamos, e isto nos serve, então isto é o acerto.
Se o casamento é algo que queremos fazer, porque nos serve, então isto é certo, assim como é um acerto a separação, se isto nos servir. Erro é insistir no que não queremos. Se o aparentemente torto é o que nos serve, então estamos vivendo acertadamente. Já os padrões de comportamento tidos pelo convencionalismo como normais, mas não nos sirvam, serão uma anormalidade, um erro.
Se um homem ou uma mulher quiserem fazer o experimento do casamento vinte vezes em sua vida, podem não estar vivendo em desacerto, mas acertadamente, se é isto que desejam fazer e é isto que lhes serve. O erro é fazer o que nos faz infelizes; o acerto é fazer o que nos faz felizes. Muito simples.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina





