Todas as coisas que fazemos devem ser bem-feitas, e não para disputar com nossos denominados concorrentes, mas para que sirvam às pessoas a que se destinam. Até porque concorrentes não existem, e sim parceiros atuando no mesmo ramo e com a mesma gama de fregueses.
Fabricantes de sapatos e pessoas que têm pés são pessoas afins. Por que, então, não se estabelecer uma convivência pacífica entre essa comunidade de iguais? Por que um produtor de sapatos tem que rivalizar com o vizinho de frente que faz o mesmo, quando ambos poderiam regozijar-se pela similaridade de seu trabalho e de seus clientes? Quando todos fabricarem sapatos bons para os pés e para o visual das pessoas, e não objetos de disputa com supostos concorrentes, a legião dos com-pés irá louvar por unanimidade a indústria sapateira.
E assim com todas as coisas. Se uma loja vende calças, deve se confraternizar com o lojista que também as vende, pois ambos visam aos mesmos clientes – os que têm pernas e querem comprar calças. Por que, então, haverão os calceiros de disputar entre si, se fazem parte da mesma confraria?! Se os fabricantes ou vendedores dos mesmos produtos intercambiassem experiências, produziriam melhor e mais economicamente e venderiam mais. Quanto mais boteco no pedaço, e quanto melhor a pinga, mais bebedor aparece.
Temos de fazer o melhor não para disputar com a chamada concorrência, mas porque é nossa obrigação proporcionar o máximo conforto e a maior satisfação possível aos que irão usar nosso produto. Temos que dar o toque da beleza em tudo que fazemos. Os denominados concorrentes não deveriam ser considerados como tal, mas como parceiros, eis que produzem coisas iguais para clientes iguais. Se um desses parceiros produzir algo melhor que o que estamos fazendo, deve ser louvado e não invejado, e seu novo modelo servir de exemplo, para que façamos igual ou ainda melhor, porém sem disputa.
Quem desejar produzir algo superior e eventualmente mais barato, que o faça, mas sem visar ‘‘concorrentes’’, porque isto é uma incitação a que o freguês não compre na loja do outro. Não é saudável esse procedimento, e pode resultar em reversão. Cada qual que apregoe a excelência de seu produto, sem denegrir o do outro.
Quando alguém confecciona uma roupa, não deve fazê-lo com raiva se lhe pagam pouco. Que lute por melhor ganho, mas nunca em prejuízo do que faz. Que não desvirtue sua habilidade de confeccionista, pois isto seria uma agressão contra sua própria dignidade profissional e contra seus dons de fazer coisas bem-feitas. Porque um produto mal confeccionado redundará em prejuízo para uma terceira pessoa, que é quem compra, e ela merece o melhor. Mesmo algo bem-feito, mas feito com má vontade, não servirá ou não se assentará bem em quem irá usá-lo, porque estará impregnado de carga negativa.
O fabricante de um produto, tão bom que dure toda a vida, prosperará mais que o que – visando vender mais vezes um produto de curta durabilidade – fabrique algo idêntico mas de péssima qualidade. Enquanto um bom produto durar, quem o fabricou estará sempre sendo exaltado, mesmo que ninguém o conheça, e assim criará fama e preferência, e haurirá essa corrente benéfica, onde quer que esteja. É necessário que cada um saiba onde está falhando com seu produto ou seu trabalho, e busque fazê-lo melhor, não para tomar o cliente do outro mas para sentir o prazer de fazer uma coisa boa para alguém. Com essa postura, os negócios infalivelmente prosperam.
Quando todos os fabricantes de camisas confeccionarem camisas boas, bonitas e confortáveis para quem for vesti-las, todos os fabricantes de camisas serão exaltados pelos que as usarem. Criar-se-á, assim, o conceito de que há bons produtores de camisas, e essa onda benfazeja mais os fará respeitados e ricos. Porque, na contrapartida, os pequenos dardos que os clientes malservidos lançam contra os que lhe vendem algo ruim, os atingirão, e quanto mais intensos forem mais os prejudicarão. Esta é uma imutável lei de causa e efeito.
Pouco adiantará fazer algo só por conveniência própria. O que se fizer haverá de ser com a consciência de servir bem, a nós mesmos e a alguém, e de preferência ao maior número possível de pessoas.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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