‘‘Os doentes mentais são como os beija-flores: nunca pousam.’’ Palavras de Arthur Bispo do Rosário, o homem que ficou meio século vivendo numa cela de um hospital psiquiátrico do Rio de Janeiro e produziu centenas de obras de arte, algumas de extrema delicadeza, como os bordados feitos com fios que ele extraía dos lençóis e das próprias roupas. E mais fez Arthur do Rosário, como vestes, estandartes, faixas de misses, vitrinas, urnas, arquivos e anotações repletas de nomes de pessoas. O material que usava eram panos do próprio manicômio, fios, dólmans (espécie de túnica de militares), cordas de cortinas, madeira e latão.
Este homem diagnosticado como esquizofrênico paranóico era um sergipano expulso da Marinha e que acabou aportando no Rio de Janeiro. Um dia ele vê Jesus descer à Terra, ‘‘escoltado por uma corte de anjos de auras azuis’’, conforme disse. Não tardou que essas suas visões fossem classificadas de delírios e esquizofrenia paranóide, e daí a interná-lo como louco foi um passo.
Na cela, ele falava de sua missão de ‘‘refazer o mundo e apresentá-lo a Deus’’, e revelou o pendor para artes manuais, destacadamente os bordados. Desfazer as cerziduras dos panos e recuperar os fios já era uma habilidade, imagine-se utilizar-se desses fios multicoloridos e confeccionar bordados! Suas obras de arte acabariam descobertas e muitas delas hoje formam um museu. O artista e sua obra ganhariam notoriedade, não só no Brasil mas também no exterior. A epopéia e o artesanato desse louco capaz de coisas incríveis correram mundo, passando por Veneza, México, Suíça, Nova York.
‘‘Os doentes mentais são como os beija-flores: nunca pousam...’’
Quem diz algo assim não deve ser louco. Não se imagina o que queria dizer com ‘‘refazer o mundo e apresentá-lo a Deus’’, mas isto certamente fazia sentido para ele. Não seria coisa de esquizofrênico paranóico, mas de uma mente lúcida. Ademais, um louco não conseguiria desembaraçar das roupas os fios e com eles produzir riquíssimos bordados, sem que ninguém lhe houvesse ensinado.
Mas importa pouco avaliar a sua arte, porque milhares de artesãos considerados normais fizeram e ainda fazem coisas idênticas. Também tem pouco importância que sua obra o haja consagrado, quando ainda vivo, e agora, passados onze anos de sua morte. Há também pouco valor nessa exaltação se ela ocorre apenas porque o artista era um louco – ou qualificado como tal.
Prostram-se todos diante da materialidade da obra - admirável que seja - porém há um valor infinitamente maior que é a existência de um espírito são presidindo todas essas coisas. Dentro da ‘‘loucura’’ de Arthur Bispo do Rosário havia um ponto de equilíbrio.
‘‘Eu faço isto por obrigação, senão eu não faria nada disto.’’ Sua obrigação, quem sabe, era nos despertar para a compreensão da sanidade dos loucos... De loucos como ele e de tantos outros que conversam mesmo estando sós, que riem e falam coisas estranhas e indecifráveis para os que não são loucos, no entanto perfeitamente entendíveis pelos que são...
Estaríamos inadaptados aos loucos ou estariam eles inadaptados a este mundo. Porque os loucos não usam documentos, não têm moradia própria nem se interessam pela aquisição de bens, são indiferentes às paixões mundanas, não conhecem preconceitos, não se preocupam com a própria imagem, com a sua vestimenta ou com a sua nudez, não fazem guerras nem incendeiam cidades.
Escreveu-se sobre Arthur do Rosário que ‘‘a riqueza simbólica e formal das suas obras abre um diálogo com a antropologia, a política, a sociologia, a arqueologia, a linguística, a poética, a história, a religião e demais áreas do conhecimento’’. Mas o que ficou demonstrado, sobretudo, é que havia um diálogo íntimo de Arthur do Rosário com o transcendente. Afinal, um dom dos loucos... Suas obras de arte e seus dizeres são a extensão dele, não a sua realidade aparente. Loucos como Arthur Bispo do Rosário, e todos os loucos, são livres, porque têm asas de beija-flor...
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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