Meditação é um estado de entrega, de contemplação, de comunhão com o transcendente e de lucidez plena. Isto pode ocorrer a qualquer momento, em qualquer lugar e circunstância, pela duração de tempo que se quiser e que pode ser um dia inteiro ou apenas cinco segundos. É um momento de sublimidade, de conexão e fusão com a alma do universo.
Não é um estado de prostração nem de concentração, mas de total desprendimento e de silenciosa oração. Pode ser praticada de várias formas, inclusive no ato sexual, que, sabiamente conduzido, pode ser transformado num momento de prece. Porque é muito poderosa a energia que dele emana, e essa energia pode ser canalizada para os fins que se desejar.
O hábito diário de praticar esses momentos de elevação faz com que todo o tempo seja de perenidade, sem ser preciso abandonar as coisas que se está fazendo. Basta ficar em silêncio, não no sentido da ausência de ruídos externos, mas de serenidade interior, de vigilância para observar a beleza e a magia das coisas que ocorrem ao redor. Este o sentido de orar e vigiar.
A simples elevação da consciência é um estado de oração. Quanto menos condicionamentos exteriores interferirem, mais fácil será chegar a essa plenitude de conexão. Tanto melhor será a comunhão com o transcendente se houver menos turbulência de correntes conflitantes no lugar onde estejamos.
A oração em grupo decuplica de poder, desde que o pensamento de todos esteja centrado na mesma causa. Preces proferidas em altos brados e em atitude de súplica produzem pouco efeito, porque envoltas em clima de desarmonia com a serenidade e o equilíbrio da mente cósmica. O cosmo não é surdo e dispensa as manifestações ruidosas. Uma serena conexão é mais poderosa que súplicas lamurientas. A prece é uma comunicação, e se malfeita não encontra ressonância.
Não devemos criar um Deus ‘‘lá no alto’’ e nos supor ‘‘aqui em baixo’’, tendo no meio um vale de lágrimas, porque assim estabelecemos o separatismo. Por isso que muitas pessoas dificilmente alcançam as coisas que desejam, porque criaram um Deus à parte da Criação e o ‘‘expulsaram’’ para o céu.
Ao julgar-se pequenas, essas pessoas não manifestam humildade mas arrogância, pois se apartam, e ao apartar-se negam a fonte de onde se originam, e assim quebram a conexão e arrogam-se o poder da auto-suficiência. Já o imaginar-se poderosas, à semelhança de Deus, as faz humildes, porque reconhecem o criador.
Quando um filho se admite tão grande e poderoso quanto o pai, reconhece-o, e assim o engrandece e o qualifica, e o pai se rejubila; se, porém, apequena-se, nega-o e o apequena também. Quem nega ser tão grande quanto Deus que o gerou, o está negando, e essa negação é arrogância. Ao assim proceder, corta seu cordão umbilical com a eternidade e acabará, ao menos em sua crença, convertendo-se no que imagina ser, e assim permanecerá até que desperte.
As religiões ensinaram o homem a ver-se como um ser impuro e cheio de pecados, insignificante, separado de Deus e sujeito a sofrimentos e a iras divinas. Ele veio acreditando nisso, e por essa razão vive num poço de dúvidas e angústias. Não progride espiritualmente e transforma-se num mero seguidor de doutrinas.
Libertar-se do jugo dos templos poderá significar um grande avanço, pois assim cada qual descobrirá pela própria busca. Livre das pregações equivocadas que ecoam pelas abóbodas, o homem ouvirá a própria voz interior, que é a voz de Deus. Aí sentirá que está certo sem mesmo compreender a razão.
‘‘Conhece-te a ti mesmo’’, está escrito. Mas isto não significa que o homem tenha que decifrar-se como ser humano, mas saber o que ele é na sua relação com o universo; não significa penetrar em seu inconsciente na busca de extrair de lá o substrato das coisas que veio armazenando. É saber que sua realidade não é a que vê ao observar-se, mas aquela que não vê e que transcende o alcance de sua visão e de seus sentidos.
Todos carregam no íntimo mais profundo a memória de algo que transpõe a dimensão em que agora se encontra. Isto acontece com todos os seres, desde as civilizações mais remotas. É porque cada qual encerra em si o registro de sua origem e sente a impulsão de para lá voltar, qual retorno ao lar depois de longa ausência.
Por que, muitas vezes, nos flagramos contemplando o universo, e nossa mente se desloca para diferentes pontos deste imenso espaço? Por que guardamos a memória do paraíso... Ensinamentos equivocados, passados adiante pela tradição religiosa, foram subtraindo do ser humano a compreensão de sua divindade, que é o seu mais rico atributo.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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