Pessoas há que se proclamam independentes, que afirmam não permitir ingerências em sua vida, porque declaram não ingerir na vida de ninguém e que vivem às próprias custas, sem dever satisfações.
Mas, a um simples olhar, vê-se que essas pessoas calçam sapatos e vestem roupas, e imagina-se que alguém os confeccionou para elas. Então, não seriam tão independentes, embora os tenham pago.
Caminham sobre uma rua pavimentada, ao abrigo da lama e da poeira, trafegam pelas estradas, e não imaginam que alguém lhes preparou esses caminhos. Pagaram pelo serviço, em forma de impostos, mas não se apercebem de que alguém teve que aplainar o solo e colocar a pedra e o asfalto. Dependeram então, essas pessoas que se proclamam independentes, dos operários que executaram tal serviço.
Saem a pé ou montadas numa bicicleta, numa moto, num automóvel, num ônibus urbano, mas não foram essas pessoas - que se dizem livres de dependências - que inventaram ou produziram esses veículos. Alguém os fabricou para elas.
Chegam em casa e não se detêm para imaginar que um projetista conhecido ou anônimo planejou esse lugar onde moram e que o construtor lhe deu forma. Tijolos, argamassa, telhas, assoalhos, portas, janelas, necessitaram de oficiais e artesãos que os fabricassem e os assentassem. Essas pessoas ditas independentes pagaram por isso, mas dependeram de um exército de pessoas para que a casa ficasse de pé e em condição de uso.
Entram na cozinha, nas salas e nos quartos e encontram sofás, mesas e cadeiras, camas, o fogão, a geladeira, o telefone, o televisor, o microondas, o computador. Alguém os inventou, os fabricou, os aperfeiçoou, os comercializou, os transportou até ali - pessoas que também dependeram de outras tantas.
Aqueles que se declaram independentes, apenas pelo fato de pagarem por tudo o que adquirem e supostamente nunca precisarem pedir nada a ninguém, não despertaram ainda para a consciência de que o alimento que lhes chega à mesa teve origem num lugar que ignoram, e que alguém, nos campos, derramou o suor do rosto e vergou a espinha sob o sol ou a chuva para que o prato, afinal, resultasse servido.
Uma indisposição física as assola, e essas pessoas que afirmam não depender de ninguém acorrem ao remédio, resultado de muita pesquisa e experimento. Trabalho que pessoas anônimas executaram por elas. O médico dá-lhes a receita, extrai-lhes o tumor. E essas pessoas, por haverem pago pelo atendimento, proclamam serem livres e independentes.
Todos os que as cercam formam uma grande família, fazendo-lhes companhia, e no entanto essas pessoas que se proclamam auto-suficientes nem os percebem, mas é certo que não conseguiriam viver sem eles, sob pena de enlouquecer-se pelo desamparo e pela solidão.
Parece não se darem conta de que, enquanto vão e voltam, em algum lugar alguém está inventando ou produzindo algo para fazer a vida melhor para a humanidade; que a turbina gera a energia e que alguém a inventou e a instalou, para possibilitar que as máquinas girem e com elas outras pessoas fabriquem os aparelhos domésticos e todas as utilidades; que alguém canta e extrai sons de instrumentos e produz música, para o deleite de todas as pessoas, incluindo as que são indiferentes ao mundo que as rodeia; compram o rádio e o televisor e os equipamentos de som e deles se servem, e imaginam que estão quites só porque pagaram por eles.
Já escrevemos neste espaço que um princípio sábio é sempre colocarmos o eu em primeiro lugar, para assim ficarmos mais atentos sobre nós mesmos e, dessa forma, buscarmos ser melhores a cada dia, não em cotejo com os demais, porém melhores do que nós próprios fomos ontem. Nada e ninguém é mais importante que nossa individualidade, porque ela é única e dela não nos dissociamos. Mas somos todos dependentes, até porque feitos da mesma substância e habitando a mesma casa dentro deste imenso condomínio universal de muitas moradas.
Colocando-nos como a pessoa mais importante, em todos os processos da vida, saberemos reconhecer nossos iguais como os mais importantes em relação a si próprios. E assim nos sentiremos envolvidos no amálgama da unicidade cósmica, a que se dá o nome de amor universal, que não é um sentimento mas um poder. Assim compreendidos, compreenderemos o universo e veremos que, independentes, somos todos dependentes, e assim nos transportamos para um estado de elevação de consciência e de identificação de nós mesmos.
Nenhum de nós vive às próprias custas apenas, mas todos vivem à custa de si mesmos e de todos. Por isso, um gesto de boas maneiras com a vida é reverenciar a todas as pessoas, pelo que fazem, e a todas as coisas, todos os dias e em todos os momentos.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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