Walmor Macarini
Quando o governo e as pessoas assinalam com a volumosa destinação de recursos financeiros para a aposentadoria, manifestam nada mais que desprezo pelos idosos, como se eles fossem um ônus. E se afastam do trabalho aqueles que chamam de velhos, é porque não gostam deles. Assim os enveredam para a improdutividade, mesmo com toda a experiência que eles acumularam e toda a energia que, a maioria deles, ainda tem.
E ao descuidar da educação, os governos demonstram desamor pelas crianças e jovens. Também porque não gostam deles, os pedagogos lhes impingem estudos desnecessários e os castigam com pesada carga horária de aulas.
Desgostosos com o pouco que lhes pagam, os professores ensinam mal, e nem tudo o que passam aos alunos tem serventia na vida prática. Pecam não tanto pelo que ensinam mas pelo que deixam de ensinar. Fazem as crianças madrugarem, impondo-lhes quatro horas diárias de aulas, quando apenas duas seriam suficientes, se melhor aproveitadas.
Por desconsiderar a fragilidade das crianças, as obrigam a carregar pesadas mochilas, cheias de livros e bugigangas que fazem a festa das livrarias e papelarias e o tormento dos pais.
Os noticiaristas, por não identificarem as reais necessidades de informação dos leitores, ouvintes e telespectadores, os alimentam com pesada ração diária de notícias desastrosas e indigestas, que só os afundam no baixo-astral.
Os bancos não gostam de seus clientes e por isso os sufocam com juros asfixiantes e os sepultam vivos. Os clientes, de sua vez, não têm simpatia pelos bancos, e se cometem a autoflagelação de utilizar-se do dinheiro tão caro, revelam não gostar de si próprios.
Os pregadores não amam os seus fiéis, pois os amedrontam com idéias de pecado e severas punições divinas, e assim os mantêm sempre cativos e sofredores. Estes, de sua vez, não crêem totalmente neles e nas coisas que pregam, por isso estão sempre em dúvida e cheios de indagações.
Os pais não amam verdadeiramente os filhos, porque lhes fazem cobranças, e estes não amam plenamente os pais, porque no mais dos casos não os têm como amigos mas como policiadores e limitadores de seus movimentos.
A comunidade do funcionalismo público tem um certo desprezo pelas pessoas que buscam papéis e informações, porque as submetem a longas esperas e as atendem com má vontade. E estas também alimentam uma prevenção com estes denominados servidores.
Os governantes não respeitam o povo e, de sua vez, o povo não nutre nenhum carinho por eles. Políticos não confiam nos políticos, porque conhecem-se bem entre si...
Os policiais vêem os cidadãos como infratores, flagrantes ou potenciais, e os cidadãos enxergam neles agentes que só querem puni-los.
Patrões acham que os empregados são os sugadores de seus lucros e não agentes do progresso da empresa, e os trabalhadores não morrem de amores pelos patrões, mesmo que estes não lhe causem mal.
Os juízes trabalhistas, por não terem vivido a experiência de ser empresários, não alcançam a dimensão de suas sentenças, algumas exorbitantes, e de sua vez os donos de empresas os consideram inibidores da criação de empregos, pelo temor que impingem em quem precisa contratar, mas não o faz.
Os homens de negócios não são muito adeptos de compartilhar experiências de sucesso e não apreciam assistir ao crescimento dos concorrentes.
As mulheres invejam suas iguais e são as grandes inimigas das próprias mulheres, embora dissimulem tão bem que só elas mesmas percebem.
Em todos os setores da vida humana - respeitada a comunidade dos conspiradores, que se negam a ser assim - uns não amam aos outros e então estabelece-se uma vigorosa corrente de desamor.
As pessoas amam pouco a si próprias e por isso também não amam muito as outras, que pela mesma razão não as amam. E aí torna-se mais difícil ser feliz.
A Terra vista do espaço é uma pequena esfera perdida na imensidão dos cosmos, mas as pessoas que nela habitam cultuam mais a aversão entre si que o amor. Sabe-se lá, já tinham essas diferenças antes de aqui aportar e por isso teriam decidido realizar o experimento de confinar-se nesse limitado espaço para resgatá-las. E nesse mergulho perderam a memória de tal compromisso. Pode ser.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina





