Walmor Macarini
Quinta-feira pós-feriadão, proximidade de mais um fim de semana, ocorre-me recontar umas histórias. Uma, a do escoteiro lobinho. Ele que aprendera que sempre que estivesse na rua e visse uma velhinha, deveria tomá-la pelo braço e conduzi-la até o outro lado, pois este era o dever de todo lobinho. Saiu então o lobo aprendiz à caça de sua velhinha a quem prestar ajuda e eis que apareceu uma.
Ele, que estava sempre alerta e este era seu lema tomou a velhinha pelo braço e puxou-a delicadamente em direção ao outro lado da rua. A anciã fez menção que não precisava. O menino insistiu. Ela relutou. Ele fez força. Ela tentou desvencilhar-se.
Para encurtar o caso: o lobinho chegou ao acampamento todo unhado e com as roupas em frangalhos. O chefe quis saber o que se passara e o lobinho então explicou que foi ajudar a velhinha a atravessar a rua mas que ela não estava querendo, aí ele teve que arrastá-la à força. Ela naturalmente reagiu, pois em verdade não queria atravessar rua nenhuma...
Outra história verídica aconteceu em Londrina:
Dia atarefado na prefeitura, 7h30 da noite, o prefeito ainda estava no gabinete, em companhia de um assessor. Logo mais teria que estar numa solenidade. Já no carro, pediu ao assessor:
Vamos rápido, senão chegamos atrasados.
À porta do local da solenidade, o prefeito nem sabia bem de que evento iria participar, e pediu baixinho ao assessor (que é para estas ocasiões que assessores servem):
- Não sei bem o que está acontecendo, me sopre aqui no ouvido.
E sem entender direito, mas atendendo prontamente ao pedido, o leal servidor aproximou-se do prefeito e pfufff... assoprou. Certamente pensando tratar-se de um bichinho que invadira o ouvido do chefe. Que queria, mesmo, era que o assessor lhe assoprasse o que ia acontecer lá dentro.
A outra é a história do contabilista Josué. Verídica, porque me foi passada por um rotariano.
Pois bem: o Rotary Club de Taquatinga, Distrito Federal, depois de ajudar uma escola do lugar resolveu promover um jantar festivo o que soa redundante, pois poder jantar já uma festa mas dizia eu, uma reunião para marcar o êxito da louvável campanha.
Ficou combinado que cada rotariano levaria um aluno da escola, que seria o seu aluno-símbolo na grande noitada. Professora e alunos a postos, eles que nem bem sabiam porque estavam ali. E os rotarianos, cada qual com a mão posta sobre o ombro do respectivo aluno-símbolo.
A reunião ainda não havia começado, eis que não se ouvira até então o martelar do sino. De repente assoma à cabeceira da mesa o presidente, que depois das palmas costumeiras ia começar a dirigir a palavra aos companheiros, mas percebeu que ele próprio, presidente, não tinha o seu aluno-símbolo.
Fora uma mancada, tratando-se do rotariano-presidente, mas ainda havia tempo de consertar a situação, e olhando no recinto viu no fundo do salão um baixinho, magricela, porém até bem vestido, que observava a festa. Então decidiu: é ele. Foi, apossou-se do magriço que o acompanhou surpreso, sem perguntar por que pôs-lhe no ombro a mão protetora, conduziu-o até a mesa central e depois de enaltecer o espírito rotário pronunciou solene:
Apresento-lhes aqui o meu aluno-símbolo, subletrado ainda, cego de conhecimentos, um pobre a quem a sorte foi tão cruel, porque veja-se-lhe o porte franzino...
E foi assim descarregando todo o seu entusiasmo rotário, até que o indefeso mas altivo baixinho, sem nada estar entendendo, viu que era demais e reagiu enérgico:
Peraí doutor. Eu sou o contabilista Josué, marido da professora. Não sou subletrado não senhor, nem aluno-símbolo coisa nenhuma, nem estou precisando de ajuda.
E dito isto sacudiu o ombro, livrando-se da mão amiga ali pousada e foi se retirando furioso até desaparecer porta afora...
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina





