Neste verão chuvoso poderíamos estar vivendo um tempo de seca, e aí clamaríamos por chuva, mas como chove e os clamores foram dispensados porque a Providência antecipou-se a eles, esquecemo-nos de agradecer pela abundância da água que cai.
Já tivemos verões de estiagem que secou os rios e as plantas, estorricou a terra, matou gado de sede e fome, molestou as pessoas pelo calor intenso, disseminou insetos, propiciou incêndios no capim seco e nas matas, empaleceu a atmosfera pela bruma seca, gerou doenças dos olhos e dos pulmões.
Mas neste verão, não. Agora chove. Além de nenhum daqueles aborrecimentos estar ocorrendo, temos a contrapartida de dias mais agradáveis, pela limpeza do ar, de menos calor e menos poeira. A água cai e irriga a terra, o capim cresce, a vaca alimenta-se bem e nos gratifica com o leite que chega à mesa. O gado de corte robustece-se e, pelo seu sacrifício, fornece-nos a própria carne como proteína, para nos alimentar a vida. As sementes germinam e as plantas crescem, viçosas, para muito breve estarem à nossa disposição nas prateleiras dos mercados, ao natural ou em forma de produtos industrializados.
Todas essas coisas caem do céu, em forma da chuva que agora nos brinda. Essas águas também lavam as calçadas e os telhados, tiram o pó das folhagens e permite que elas respirem melhor. Enchem os mananciais, que com a vinda do sol flutuam e transformam-se em novas chuvas. A terra absorve e conserva a água e por algum tempo aguentará o calor que virá depois.
Com a chuva os confeccionistas vendem capas, chapéus e guarda-chuvas, o oleiro vende as telhas, o latoeiro as calhas, o operário conserta as goteiras, o lavrador sulca a terra e lança nela as sementes, que germinam e dão flores e frutos, as águas enchem os reservatórios e mitigam a sede dos homens e dos animais, arrastam para os bueiros os cuspes das ruas e as impurezas que nelas lançamos, as represas se enchem e movem as turbinas, que nos propiciam a energia que move as máquinas e ilumina nossas noites. Todos ganham com a chuva.
Dias chuvosos nos induzem a um bom trago, que é salutar no momento certo e na medida exata. Retém-nos mais em casa e propiciam intimidade familiar. Sempre entusiasmam alguém a ir para a cozinha e fazer o café ou o chá, que nunca vêm sós. E aí a conversa rola. A chuva nos convida à reflexão, à leitura, a um joguinho de cartas, a envolvimentos íntimos.
Se chove ficamos menos agressivos, porque o calor nos incomoda e nos irrita, assim como irrita os mosquitos e as cobras. Os homens são como as cobras: exasperam-se com o calor. Chuva é certeza de rios cheios, de mais peixes, de mais plantação e de mais colheitas. De mais serenidade.
Temos que louvar a chuva por nos trazer tantos benefícios, e agradecer quando ela cai abundante, mesmo que às vezes nos encharque o corpo e dificulte um pouco os nossos movimentos. Se não a reverenciamos quando ela está presente – e às vezes até a maldizemos – deveríamos pedir-lhe desculpas quando somos obrigados a clamar quando ela nos falta.
Devemos manifestar gratidão à chuva, assim como ao sol quando é a vez dele, ou ambos tenderão a escassear ou virem carregados demais e passarem da conta. Temos que estar sempre em harmonia com eles e com toda a natureza que nos rodeia, e a contrapartida virá em graduação idêntica.
Se às vezes há reações bruscas do tempo, devemos saber que são respostas a algo que fizemos. Não podemos culpar o acaso pelas coisas que acontecem na natureza. São as dores da mãe-Terra manifestadas, por conta dos nossos descuidos com ela.
Nestes dias de chuva vamos nos lembrar dos dias sufocantes de sol, e aí perceberemos como é boa esta água que cai, mas com o cuidade de, por conta disto, não qualificarmos o astro-rei de desprezível, eis que não podemos prescindir dele, sob pena de não podermos viver neste Planeta que escolhemos para esta nossa temporada de experimentos.
Se todas essas coisas não bastassem, ainda temos as andorinhas, que com a chuva saem para brincar e se divertem com seus ziguezagues, parecendo crianças.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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