Walmor Macarini
Tive a graça de conviver com algumas pessoas interessantes em minha infância, na juventude e na idade adulta. Entre elas meu avô Pasqual, que era subletrado porém sábio; minha mãe, tão sábia quanto o pai meu avô, conselheira dos familiares e a quem muitos recorriam, nas horas boas e tristes; meu vizinho mais próximo, um certo sr. Berlanda, que era prático em dentística e tinha uma biblioteca que ele colocava à minha disposição, nos meus tempos de menino; João Milanez, homem simples, de gestos brincalhões, mas iluminado e sábio, que traçou os rumos deste jornal e, até hoje, deles ninguém se desviou, não à toa filho que era do velho Pasqual; Santinho, outro tio de parte de mãe, ele que falava sem pronunciar palavra e inquietava pela atenção à conversa e respondia com um sorriso sutil ou um respeitoso mas fulminante esgar; outro Santo tio, este de parte de pai, que me presenteou com um violão, daqueles de cravelhas, quando eu tinha 12 anos, e que desde então nunca deixei de tocar; minha professora Teresa, ainda viva, que no curso primário já nos ensinava a como viver em comunidade e nos passava ensinamentos até de nível superior, porque sabia que eram pequenas as chances daqueles meninos da roça de prosseguirem em estudos mais avançados, ela que enchia de livros as prateleiras da escola e permitia que usufruíssemos deles à vontade, quando era dia de chuva (ah, os dias de chuva, como trazem boas lembranças e me enchem de energia!); Nilson Rímoli, que foi Diretor de Redação deste jornal, que me ensinou a dar direcionamento às letras e alertou-me para a responsabilidade da palavra escrita; e João Rímoli, este apenas sábio.
A partir daí foi fácil eu ir identificando os novos sábios que iam desfilando ao longo dos meus dias. Quando estamos prontos para ouvir os sábios eles aparecem. -
Aconteceu com João Rímoli um caso que me ensinaria a pensar nas qualidades ocultas das pessoas, mesmo que elas nunca as propagandeiem. Já contei esta história uma vez e vou contá-la de novo. Eram tempos em que, neste jornal, captar notícias atuais de outras cidades só através de rádio-escuta. Então, muitos acontecimentos de fora, sobretudo de São Paulo e que não havíamos captado pelo rádio, eram recortados do vetusto Estadão, que chegava cedo, por via aérea, naqueles anos em que, em Londrina, os aviões faziam fila para pousar e decolar.
Essa tarefa de recortar jornais denominava-se gilete-press. Era João Rímoli, dez anos mais velho que eu e experimentado jornalista, quem selecionava as notícias. Algo que não engrandecia nenhum profissional de imprensa mas que era preciso fazer, porque os assinantes do jornalão paulista não eram muitos aqui e este jornal tinha que municiar os leitores com todas as informações.
Depois a Folha viria a adquirir equipamentos de rádio-telégrafo, teletipo e radiofoto, que possibilitavam obtermos texto imediato e fotografia em pouco mais de 3 minutos, de Nova York e do resto do mundo. Uma variante, cinco décadas atrás, da Internet de hoje.
Recém chegado do interior catarinense, então com 18 anos e recruta em jornalismo, certa manhã eu fui chegando e cumprimentei João Rímoli com um gracejo que, logo eu perceberia, foi de muito mau gosto, mas bom que o tivesse feito, ou não teria aprendido a lição:
Aí seo João, fazendo a sua gilete-press!
Não fosse meu tom de deboche talvez ele nem se importaria. Foi então que, do alto de sua integridade, parou o que estava fazendo e olhou-me firme, sem ar de ofendido mas solene:
É, fazendo minha gilete-press, mas depois vou escrever o Editorial. E você, o que é que vai escrever hoje?
Eu mal sabia ler jornal, imagine-se escrever nele!
O Editorial era o artigo de fundo, a opinião do jornal.
Captei a mensagem de imediato e calei-me, com o rabo entre as pernas. Pedi-lhe desculpas e acrescentei que naquele momento eu havia aprendido uma importante lição: a consciência de que as pessoas podem ter qualidades que não conhecemos, por isso não devemos fazer julgamentos a priori.
João Rímoli era um homem que ria o tempo todo. Tinha uma mulher igualmente risonha, qual alma gêmea que o completava, ao tempo em que completava-se ela também. E oito filhos, que ele queria que fossem apenas normais sem buscar sobressair-se dos demais. Detestava que tirassem nota 10 na escola, porque isto não era preciso. Bastaria que fossem como os outros.
Essa normalidade fez de todos os seus meninos, hoje homens e mulheres feitos, exemplos de sucesso profissional e de vida equilibrada e serena.
Ele dizia coisas sábias nos momentos precisos, destas que fazem pensar. Era instigante e me induzia a reflexões. Nada do que falava se perdia. Não era doutrinador nem se importava se eu estava prestando atenção ou não. Apenas dizia. No jornal, quando todos estavam preocupados com algum dilema, ele chegava, e se esperávamos dele uma resposta conclusiva, era mais provável que contasse uma anedota. Então todos riam, como que se desligando do problema, e na descontração a resposta chegava.
Tento 99 vezes ensinava Einstein e nada obtenho. Então jogo a questão para o alto e a resposta me chega. Era quando lhe falava a voz da intuição, que o cientista tanto valorizava, fazendo questão de deixar isto dito.
A lição de João Rímoli, ao mostrar-me que ele fazia gilete-press mas também escrevia o Editorial, fez-me assumir uma postura que adoto até hoje, de não julgar as pessoas pela aparência primeira, nem por aparência nenhuma, nem quando nos ocorre aquela estranha aversão que às vezes temos por alguém que vemos pela primeira vez.
Se uma pessoa se envolve em algo que a maioria cataloga como imperfeito, julgamentos acorrem de toda parte, mas logo penso: O que será de melhor que esta pessoa faz? E acabo descobrindo que se trata de um bom profissional em certa área, ou responsável por determinado trabalho que causa benefícios a tantos, ou que tem um problema pessoal ou familiar que ele enfrenta com galhardia; ou, no mínimo, que é apenas um fraterno nosso, e este não precisa ostentar rótulo algum para ser bom e digno de carinho e respeito.
Descobri que encarando as pessoas sob esse prisma, não só elas acabam se tornando ótimas aos nossos olhos, como tudo melhora ao nosso redor, e as coisas que antes pareciam tão desagradáveis nos melindram menos.
- WALMOR MACARINI é jornalista em LondrinaB





