Humildade é compreender nossa grandiosidade, porque assim aceitamos nossa origem divina e louvamos o princípio da criação. Mas é arrogância nos imaginarmos apartados, portanto negadores de quem somos, porque assim nos julgamos produto de nós mesmos e por extensão pequenos.
Quando colocamos o eu em primeiro lugar colocamos Deus em primeiro lugar, porque o reconhecemos manifestado em nós. Ele é nós e nós somos ele, portanto uma só coisa. Mas somos nós que acionamos Deus, ou então ele não nos teria dado o livre arbítrio. Nosso experimento é o experimento de Deus.
Quando nos movemos, Deus se move conosco, porque Deus não é um ser, mas o espírito do universo. Assim na Terra como no céu, ou, assim aqui como em toda parte – está em nossa principal oração. Dessa forma, tudo o que nossa mente espiritual alcança nos pertence.
E o que veio fazer Jesus aqui? Não veio nos salvar – porque, também ele, não interferiria em nossa livre caminhada – mas veio mostrar nossa capacidade de encontrarmos o caminho e trilhar por ele, e assim retornarmos ao lugar de onde somos originários. Este o sentido de salvação.
Mas as doutrinas dominantes ensinaram o comodismo de montarmos em suas costas e deixar que ele nos carregue. E nem que acreditássemos em processos de salvação, dela não precisaríamos, pois somos todos salvos. Eis que não somos pecadores, mas experimentadores.
Se imaginamos que há pecado – embora não exista pecado na consciência de Deus – então Deus também estaria pecando conosco, porque tudo o que fazemos ele faz, e tudo o que ele faz é o que fazemos. Então também construímos o universo? Se Deus nos tem como parte dele, então somos apenas um e não somos senão ele...
Esta não é compreensão para pespectivas teológicas, mas a compreensão chegará se o homem abandonar a luneta da perspectiva e olhar com os olhos do espírito.
Escrevi que somos o centro a partir de qualquer ponto e desse ponto contemplamos o universo e contemplamos a nós mesmos, porque somos o universo. Mas podemos nos imaginar onde bem quisermos e criar um modelo de Deus da maneira que melhor nos aprouver, transformá-lo num ser, conversar com ele, vê-lo na forma de uma flor ou do soprar do vento, de um vulcão ou de uma estrela. Nunca, porém, mudaremos sua substância, porque também não poderemos mudar a nossa e nem Deus a mudará, porque neste universo em expansão e transformação o princípio é imutável e não carece de revisão.
Somos co-criadores com Deus e Deus é co-criador conosco, então tudo podemos a partir do eu, que muitos entendem como culto ao ego, mas não é desse ego que falamos, porém se assim alguns quiserem entender então assim é, porque as coisas têm a qualidade que lhe damos, não obstante perenes em sua essência.
Observar Deus a partir de uma pespectiva teológica é estabelecer medidas de Deus, é mensurá-lo segundo um ângulo de observação, é atribuir-lhe qualidades – é bom, é justo, é amor. Não existe um Deus amoroso capaz de tocar-se de sentimento ‘‘individual’’, porque isto pressupõe uma bipolaridade, com um suposto Deus sem amor, capaz de vingar-se e ‘‘fazer justiça mandando-nos para o fogo do inferno’’...
Também aí, se quisermos ir para um lugar que imaginemos assim, Deus irá conosco, porque ele fará o que é do nosso livre pensar e do nosso livre criar. Deus não é amor sentimental, porque não age por emoção mas por um princípio inteligente de causa e efeito. Peça e receberás, está escrito – ou: aja, seja o agente, a causa. Se acionamos Deus somos causa e Deus produzirá o efeito. Deus não age por arbítrio, porque dele não necessita, mas atende às nossas decisões, para a paz ou para a guerra.
Porém nosso destino é único – a plenitude da luz – por que ‘‘lᒒ cessa o arbítrio e nada há a arbitrar. Será o retorno ao lar, depois que todas as nossas escolhas e experienciações se cumpriram.
O homem tem se guiado pelo que lhe disseram, mas só se guiará pelo que ele próprio descobrir. E quando descobrir, isto será eterno e o tirará dos pontos de perspectiva, colocando-o frente à frente com a verdade, e dela ele jamais se afastará. O eu em primeiro lugar significa que somos agentes de nosso crescimento, porque nunca cresceremos através de um poder que supostamente venha interferir em nossa livre escolha e mudar nossos rumos.
Mas então, a morte não é uma vontade de Deus? Não. É uma vontade nossa, para que realizemos nosso experimento, e Deus a experimentará conosco. Então Deus morre? Não, Deus não morre porque nem nós morremos, eis que morte não existe. O que é morte se somos eternos?!
O amor de Deus não é emoção mas amálgama, unicidade, poder que une e que torna Deus e todos os seres e todas as coisas uma só coisa. O suposto arbítrio de Deus não interfere em nosso arbítrio porque seria supor que ele poderia arbitrar contra si próprio. Se nos movemos, movemos Deus, ou ele não nos daria um poder de arbítrio sem função. Então somos Deus? Então somos Deus!
Difícil entender? Bastará sair das perspectivas teológicas e estará aberto o caminho para as próprias descobertas.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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