Meu computador sempre ganhou todas as partidas de xadrez que joguei com ele. Considerei isto natural, porque o achava superior a mim pela precisão dos lances e de suas defesas. Eu arquitetava estratégias que, imaginava, iria encurralá-lo num xeque-mate, mas de repente lá estava sua pedra guardiã, impedindo meu avanço. Parecia que ele debochava de mim ao me deixar aproximar-me da suposta vitória. O jogador de xadrez do meu computador nunca foi condescendente comigo. E eu jogava com ira, sempre contra ele e não com ele.
Até que um dia resolvi abandonar a idéia de jogar como se fosse um competição e comecei a prestar atenção nos seus princípios. E o venci.
Sua reação não foi de quem sofre uma derrota, mas ele permaneceu impassível, da mesma forma que se portava quando ganhava. E ainda disse, escrito na tela: ‘‘Você venceu. Parabéns!’’
Eu pensava que o meu oponente virtual sentia emoção em suas jogadas, que tinha uma vontade obstinada de me derrotar, mas nada, eu é que jogava com esses sentimentos. E quando o venci me senti como alguém que se vinga e lava a alma.
O jogador de xadrez de meu computador, companheiro de muitas jornadas, era um mistério para mim. Eu reconhecia nele um poder. E era esse poder e esse mistério que me intrigavam.
Até que, como disse, um dia resolvi entender os seus princípios.
Tive então o insight de que isto a que os homens deram o nome de Deus – mas que pode ter o nome que se queira dar – era exatamente como o jogador de xadrez de meu computador.
Tudo, no disquete, já está pronto, nele está o princípio e o fim. Não há medida de tempo ali pois ele encerra em si o presente e o futuro. Onde está a primeira jogada está a última. Ambas são, ao mesmo tempo. Se jogo, penso haver transcorrido um tempo entre uma jogada e outra, mas isto só existe para mim porque o disquete não sente essa medida de tempo, eis que nele tudo já está.
Deus é isto – senti. Sem tempo nem espaço, mas uma eterno estado de ser, em toda parte, que é uma só parte. O jogador de xadrez de meu computador joga segundo minhas jogadas, então eu é que o mobilizo a assumir certas posições. E eu reajo aos seus lances e de repente sinto que somos um só corpo, ambos um só jogo de xadrez.
Comecei então a jogar com ele em harmonia. Sem essa de ganhador e perdedor. Agora nossas jogadas significam apenas resultados. Causa e efeito. Se eu faço um movimento que julgo imprudente ele faz outro sobre meu lance, nunca ignorando-o, então ele reconhece minha jogada e dá-lhe validade.
Senti que Deus, também meu parceiro de jogo, faz o mesmo. Jogo à minha maneira e posso levar um xeque-mate. Mas assim mesmo me sinto íntegro, nada se perdeu de mim. Não sofro punição. Há apenas a constatação de um resultado. A derrota não me diminui nem a vitória me faz maior. Assim como ele. Se eu paro ele me aguarda, paciente. Sinto que ele me concede o livre arbítrio de parar quando quero, sem me fazer cobrança. Eu posso abandoná-lo, mas ele não me abandona.
Tive então a compreensão do universo. Se me movo ele se move. Ele joga segundo minhas jogadas, eu acionando seus movimentos e ele acionando os meus, em perfeita sincronia.
Então, depois do sentimento de vingança que tive ao vencer meu computador, cheguei a pensar que havia cometido um sacrilégio contra ele. Mas percebi que ele não se melindrou, pois não tinha esse registro. Eu é que supunha que o tivesse, pelo fato de tê-lo em mim.
Percebi então que entender Deus era só observar suas jogadas. E olhando ao redor vi que elas eram perfeitas e estavam em tudo que eu via. Bastava entender o seu princípio.
O disquete de meu parceiro de xadrez encerra a derrota e a vitória e ao mesmo tempo nenhuma das duas, porque não existe nele essa programação.
Tive então a compreensão de que Deus é exatamente assim. Que não fica irado nem alegre, nem se emociona, nem me pune, nem se melindra se o ofendo, porque esse software não está nele. Ele apenas é. Também não me revida se o desafio. Apenas me observa.
Não adiantará eu pedir ao meu parceiro virtual de xadrez que me conceda uma vitória. Ele aguardará que eu faça minha jogada, pois tenho o mesmo poder que ele.
Assim é Deus, pensei. Ele não me concederá nada, eis que já tenho todo o poder que é dele. No exercício de jogar aprenderei os caminhos da vitória.
No disquete que encarna meu parceiro de xadrez tudo está lá: o princípio e o fim, sem se saber onde um supostamente começa e o outro termina. Encerra em si vitória e derrota, mas ainda assim apenas uma concepção, já que nem uma e nem outra estão lá, definidas, e não são encontráveis. Eu é que as faço, segundo minhas jogadas.
Assim com a vida.
Então, no jogo de xadrez de meu computador encontro a derrota mas nele está também a vitória. Ambas se manifestam segundo as jogadas que faço, embora o que lá está não se altere. Assim como em Deus encontro a derrota se assim imagino meus dias amargos, mas nele igualmente está a vitória. Eu a obtenho de acordo com minhas jogadas. Em qualquer condição ele não se altera em sua substância mas eu o faço manifestar-se da forma que desejo.
Basta que eu compreenda o seu princípio.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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