Se nos entregamos muito a seguir a opinião dos outros, vamos ficando dependentes deles, tornamo-nos propriedade deles. E pior ainda é quando seguimos os rumos que os outros querem dar às nossas próprias opiniões. E então, além de ficarmos presos às opiniões deles, nos esquecemos de saber o que nós próprios pensamos a nosso respeito.
Nada deve influenciar mais nossas decisões que aquela que já existe, sábia e latente, dentro de nós próprios. Nem escritos como este devem ser instrumento para influenciar alguém e, eventualmente, mudar os rumos de sua vida.
Na verdade, rumamos para o sentido que já existe dentro de nós. Se alguém diz algo que nos toca, é porque já estávamos tocados por isto. Bastava acionar essa tecla e alguém poderá, aí sim, ajudar a encontrá-la. Dizer que alguém mudou nossa vida é apenas nos havermos identificado com algo que já estava em nós.
Mas isto exige que examinemos se o que nos dizem é realmente o que nosso espírito afirma, ou se, pela ausência de experimentos com o potencial de nossa intuição, deixamo-nos seduzir pela primeira voz que nos chega.
Ouvir apenas os outros, aleatoriamente, pode bloquear a própria voz interior e assim inibir a capacidade das nossas próprias descobertas. É certo que, a par de tantos bons ensinamentos – para aqueles que tiveram o insight de entender (em verdade o que já estava entendido dentro deles) – também se passou de geração para geração a experiência do desconhecimento. E muitos o têm absorvido e passado adiante.
Há uma ordem natural dentro de nós e devemos segui-la, se queremos realmente encontrar o caminho da libertação ou da salvação, como se diz, porque não é outra a salvação senão esta, a de descobrirmos o que realmente somos.
Não temos que temer que alguma força exterior nos domine, um suposto demônio, porque o único demônio que pode residir em nós é nosso próprio medo, anverso de amor. Medo é separação, sensação de pequenez, idéia de pecado, de punição, temor de Deus. Amor é amálgama, coesão, unicidade, comunhão com Deus, saber-se grandioso. Nosso demônio é seguir os passos de nossos medos.
Não existem pecados nem culpas porque nada há de errado nesta vida que vivemos. O que cremos ser nossos pecados são nossos experimentos. Nada acontece que a mente coletiva não haja permitido ou municiado com instrumentais para que acontecesse. Atribuições de culpas e pecados não existem na consciência de Deus, e se compomos Deus, nada há de errado conosco.
Experimentos do corpo são experimentos do espírito e experimentos do espírito são experimentos de Deus. Uma folha que brota e uma folha que cai são idênticas experienciações da vontade divina. Não há punição para a folha por sucumbir e cair... Assim os conceitos terrenos de bem e de mal, não obstante apenas conceitos. Diríamos perspectivas teológicas, livre arbítrio do homem. E também nesses conceitos, no livre ser, no livre pensar e no livre fazer não reside mal algum.
Medos, limitações, idéias de culpa, são condicionamentos que impomos a nós mesmos, no mais das vezes pela doutrinação daqueles que querem nos manter sob domínio. Mas se ninguém mais houver que queira nos dominar e ninguém que queira ser dominado, então o medo desaparecerá e seremos livres.
Somos formas da consciência superior, mas dela nos recusamos a fazer uso e assim o processo será mais longo. Questão de escolha. Se paramos pela estrada escutando o que os outros nos dizem, desviamos a atenção da voz de nossa própria mente superior. Perdemos o hábito de ouvi-la, retardamos a caminhada e perdemos a companhia dos que seguiram em frente e já estão lá diante.
A entrada do novo milênio – e apenas por coincidência cronológica – é a da expansão da consciência, um tempo de auto-descobertas. Bastará recolher-se ao silêncio – não de ruídos, mas das seculares vozes externas que nos desorientam e confudem – e ficar atento ao que nos soa de dentro. Esta será a era de grandes avanços da ‘‘tecnologia’’ do espírito.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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