Walmor Macarini
A segunda vinda de Jesus, como muitos esperam, nunca acontecerá, porque simplesmente ele nunca se foi e sempre esteve aqui. É que as pessoas, na grande maioria, nunca o viram, eis que não o reconheceram, sobretudo aquelas que o cultuam em altos brados e desvairada prostração, algumas muito inconvenientes com suas fanáticas doutrinações e cujo sentido desconhecem.
Mas imaginemos que Jesus realizasse, da forma que muitos imaginam, a sua segunda vinda à Terra. Como aconteceria? Certamente não nasceria mais numa manjedoura, mas para aqueles que acreditam que assim seria, onde se situaria ela? De novo em Belém da Judéia ou em Belém do Pará? Se fosse aqui, Jesus seria filho de uma brasileira, pobre e barrigudinho como os meninos que habitam as margens do Rio Amazonas. O pai seria um barqueiro, e nisto Jesus já teria prática. Por mais milagres que fizesse, ninguém acreditaria, e se alguém ousasse afirmar que aquele era Jesus, não faltaria quem o exorcizasse como possuído pelo demônio.
Não. Nascer em Belém do Pará não daria certo. Quem acreditaria num Jesus brasileiro?
E se fosse outra vez na Judéia? A notícia não mereceria sequer uma linha nos jornais. Mas, admitindo-se que vingasse a idéia, e que o lugar passasse a ser grande atração turística? Árabes e judeus fariam uma guerra em disputa pela hegemonia do local de tão glorioso evento.
Não. Lá Jesus não nasceria de novo, seria mais prudente.
E se nascesse na China, na Coréia, no Japão? O mundo ocidental não aceitaria um Jesus de olhos puxados e a questão acabaria nas Nações Unidas. Mesmo porque, naquela região, poucos são cristãos. Talvez até por isso Jesus optaria por nascer lá, mas não: um Jesus de raça amarela, fora de cogitação. A sede mundial do evangelismo romperia relações diplomáticas e comerciais e decretaria um boicote econômico a toda aquela região.
Nos Estados Unidos, então? Ops, isto poderia dar certo. Pelo tamanho desse palco mundial não haveria lugar mais adequado, mas os sumo-sacerdotes ficariam enraivecidos e pediriam a Bill Clinton óbvio que não a Poncio Pilatos que o levassem a julgamento. Clinton, democrata, da mesma linha ideológica de Jesus e já em fim de mandato, indagaria, inconformado: Mas que mal fez este homem. E a multidão responderia: Este homem blasfema, pois se diz Jesus.
O presidente consultaria seus estrategistas políticos, e estes o alertariam do perigo de contrariar 260 milhões de religiosos. Então ele proporia: Posso dar indulto a um condenado. Quem liberto? Este racista assassino ou este a quem não vejo culpa? E todos responderiam em coro: Solte o assassino! Bill Clinton lavaria as mãos e Jesus seria levado para a cadeira elétrica.
Mas imaginemos que nada disso acontecesse, que Jesus crescesse em anos e seguisse seu segundo ministério terreno. Certamente que não calçaria sandálias, mas um tênis All Star, ou um Nike, ou um Reebok. Não mais vestiria uma túnica, mas uma calça Lee rasgada no joelho e uma camiseta desbotada, com o dístico I love you (óbvio que não seria Jesus te ama, pois ele seria o próprio). Ou, quem sabe, vestiria roupas de executivo. Talvez quisesse, desta vez, converter os ricos de Wall Street e de todo este mundo...
Nem pensar que chegaria, por exemplo, a Nova York montado em lombo de burro. Os guardas de trânsito o impediriam à entrada da cidade. Chegaria então de táxi. Mas onde arranjaria dinheiro? Teria que ter um emprego. Beberia vinho ou coca? Comeria peixes das águas poluídas do Rio Hudson ou hot dog? Não iria, certamente, cometer a imprudência de transformar água em coca-cola, porque isto a própria Coca-Cola já faz...
Jesus teria que falar aos homens, mas o faria dentro dos templos, subiria nas colinas ou iria para a televisão? Para a tevê, certamente, mas quem lhe daria horário, sem um bom anunciante? Os pregadores fariam um boicote à rede que ousasse abrir espaço para esse agitador possuído pelo demônio, e nem a Microsoft, nem a GM, nem a Boeing, nem a Coca-Cola ousariam anunciar nessa emissora e perder tamanha legião de potenciais consumidores.
Talvez Jesus usasse outro nome, ou mantivesse o antigo. Teria que entrar na Internet, viajar de avião, correr o mundo. Mas com que grana? Se fundasse uma igreja mas ele nunca fundou igreja alguma, e não o faria desta vez até que arranjaria bom dinheiro, mas não. Seria um pobre, e quem patrocinaria um pobre? Jamais ele conseguiria provar que era Jesus, o próprio. Quem acreditaria nisto? Se viesse a arrastar multidões o que certamente aconteceria um grande partido político iria lhe oferecer legenda, quereria fazê-lo candidato. Mas não: Jesus, se bem o conhecemos, iria se meter em encrenca com as religiões, e as primeiras granadas contra ele seriam lançadas justamente pelos sumo-sacerdotes e seguidores do velho Jesus, sabe-se lá os mesmos que há 2 mil anos o crucificaram...
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina





