Alguém indaga por que muitas pessoas boas morrem tão cedo, e minha neta, inocente e pura, responde: ‘‘Deve ser porque precisam delas lá no céu...’’
E com certeza precisam, mas as que ficam sofrem muito quando um dos seus se vai, principalmente se em circunstâncias trágicas, se no vigor da juventude, se em plena execução de algum projeto para o qual estudaram tanto, ou se ainda crianças. Ficam muitas indagações sem resposta e a sensação de vazio e de perda. Uma contida indignação comprime o peito, e a amargura toma conta de tudo.
Palavras de conforto amenizam, mas às vezes contribuem para reacender situações de dor. Bom se as pessoas pudessem compreender que nada morre, que há apenas o despojamento de um invólucro temporário que perde a validade quando se opera o fenômeno da transcendência, a que se deu o nome de morte.
Para os que ficam, a morte de um dos próximos é, no mais das vezes, uma provação, mas povos existem que pranteiam os nascimentos e rejubilam-se nos desenlaces físicos, porque para eles este momento é de libertação, uma etapa que se encerra para que uma nova se inicie, e assim sucessivamente, até que tudo se cumpra e se alcance a plenitude da grande vida.
Nada acontece por acaso, e o que ocorre a cada um é frequentemente uma autodecisão tomada antes da ancoragem nesta dimensão terrena. Porque o homem (entenda-se sua individualidade perene) não tem a idade dos seus anos lineares mas é tão ‘‘antigo’’ quanto os tempos eternos. Apenas o corpo físico tem uma data de nascimento e comemora aniversário. Porque a vida subjacente (ou pré-existente) de cada ser é apenas uma e eterna, e não passa por processos de nascimento e de morte. O corpo que a envolve sim, porém corpo não é vida mas apenas embalagem. As inumeráveis embalagens ganham o nome de ‘‘muitas vidas’’ ou ‘‘vidas passadas’’, mas a grande vida de cada um é uma apenas. Diz-se que um corpo está vivo, mas tal é porque o espírito nele instalado o mantém ativo.
‘‘...E te farei voltar a esta terra.’’
‘‘...Eu, porém, vos declaro que Elias já veio, e não o reconheceram. (...) Então (...) entenderam, que lhes falara de João Batista.’’
Viver a vida, como a entendem muitos – na verdade a maioria – apresenta-se como algo difícil, pela dura realidade do mundo, e absorver a idéia da morte é mais difícil ainda, daí os sofrimentos quando acontecem os desenlaces. Mas compreendidas sob o prisma de que mesmo a matéria não morre mas se transforma, que o espírito vivifica, porque eterno, e que ‘‘lᒒ é a vida e aqui é a morte – ou o afundamento temporário na profundeza desta tridimensionalidade – uma nova perspectiva se abre e todo o enigma vai se desvendando.
O que se chama destino não é um fatalismo, mas é, sim, o que cada qual se autopredeterminou, então não deixa de ser algo já estabelecido. Porém pela vontade própria. É um projeto prefixado, daí poder-se dizer destino. A entrada na densidade da matéria apaga a memória do que cada qual planejou antes de cada vivência na fisicalidade. É o ingresso no espaço e no tempo, ambos inexistentes na eternidade mas presentes nesta dimensão e necessários para que se realize o desígnio desse experimento – sempre uma decisão voluntária de cada um – e se opere mais rapidamente o processo da evolução e da plena purificação, até o retorno à plenitude da luz.
O plano terreno não é de punição, mas também não é um lugar onde seja fácil a alegria constante. É difícil perdoar aqueles que nos tangem, ou que tangem a alguns dos nossos, mas podemos evoluir através desses acontecimentos que nos marcam tão duramente. Respeitar a dor dos que sofrem é dever, buscar atenuar-lhes essa dor é um dever ainda maior. Importa pouco se não compreendem e não são gratos, e é justamente aí que reside o amor incondicional.
As tarefas aqui e ‘‘lᒒ são idênticas e a labuta não cessa, cada qual segundo a sua especialidade. Porque o salto não é direto, daqui para o pleno reino. A vida continua no mesmo diapasão, com algumas variantes, mas nada que quebre o ritmo e a harmonia, nem com fardos tão pesados que não possamos carregar.
Fiquemos atentos aos netos:
‘‘Se pessoas boas morrem mais cedo, deve ser porque precisam delas lá no céu...’’
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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