As pessoas seriam mais felizes se exercitassem com mais frequência o culto ao agradecimento. Mas não agradecem porque no mais das vezes não percebem o benefício e a beleza das coisas que as rodeiam, nem as dádivas que a vida lhes oferece a cada instante. Habituam-se a recitar corolários de lamentações e fazem disso um vício, mesmo que tudo ao seu redor esteja bem. A prática repetitiva de narrar e rememorar eventos tristes as faz amargas, turvando-lhes a percepção de coisas maravilhosas que desfilam à sua frente, sem que as notem.
A maior das dádivas é o dom da vida, mas as pessoas raramente se detêm para agradecer por este perene privilégio. O coração pulsa mesmo enquanto dormem, e os pulmões absorvem e expelem o ar continuamente, porém isto lhes passa despercebido.
O sol se levanta e se põe com precisa regularidade, mas as pessoas poucas vezes proclamam que é lindo o dia e que é repousante a noite que chega.
Essas pessoas têm a graça do livre ser e do livre pensar, a mente singra os espaços e voa para além das galáxias, mas não percebem que elas próprias compõem a majestade do universo que contemplam.
Sentam-se à mesa e alguém lhes serve o alimento, mas poucos fazem reverência àqueles que, com o cansaço dos músculos e o suor do rosto, sulcaram a terra e extraíram dela o sustento para tantos.
E dos que trabalham os campos não ocorre a gratidão pelo fabricante do arado, do trator e da ceifadeira, pelo animal que o transporta pelas veredas.
As pessoas pouco se agradecem entre si, mas alguém confeccionou os sapatos que protegem da terra quente e pedregosa os pés, a roupa que cobre a nudez e abriga do frio, o chapéu que protege do sol escaldante a cabeça.
O cientista descobre a fórmula, o médico a ministra ao paciente e o remédio cura a doença; toda uma legião de anônimos movimenta-se nesse processo de amenizar dores e sofrimentos, um garantindo ao outro a sobrevivência, mas eles pouco se louvam.
Alguém, enquanto outros dormem, monta a guarda para garantir-lhes o repouso, e estes lhe pagam o soldo, mas eles não se reconhecem.
Enquanto uns produzem suas criações e seus inventos, para beneficiar as pessoas e garantir a própria manutenção, outros fazem descobertas, arrojam-se em empreitadas perigosas e proporcionam iguais benefícios a outrem, mas raros são os que se detêm para um momento de gratidão, uns para os outros.
O jardineiro cultiva as flores para garantir a própria sobrevivência, e sem perceber faz mais festiva a paisagem e proporciona que os amantes enviem essas flores às suas amadas, e assim nutre o amor. Mas as pessoas se esquecem de enviar uma imaginária flor ao jardineiro.
Pessoas anônimas construíram as moradias, instalaram todas as utilidades domésticas, e quem delas se beneficiou esqueceu-se de dedicar-lhes um minuto de gratidão.
Alguém dotado de gênio inventou os instrumentos musicais, alguém mais compôs a música, pessoas criaram tecnologias que tornaram possível ouvi-la, e poucos curvam-se em reverência a esses talentosos benfeitores.
Homens intrépidos rasgaram a mata para traçar as estradas, outros tantos as construíram, uma pessoa inventou o automóvel, outra o aperfeiçoou e hoje uma legião de especialistas os fabrica, para usuários que desconhecem, e esses usuários os compram e garantem o emprego de muitos, mas todos se imaginam pagos e esquecem do culto ao agradecimento por tanto esforço mútuo.
É escassa a homenagem do discípulo ao mestre, e a este raramente ocorre agradecer ao aluno pela oportunidade que lhe dá de ser útil.
Aos serviçais que carregam as cargas pesadas, limpam os cômodos e recolhem os detritos, poucos se lembram de uma menção de agradecimento.
E àqueles que prestam socorro nos momentos de emergência, que acarinham com gestos e consolam com palavras, quantos lhe têm sido gratos?
Mas, sobretudo, quantos agradecem aos que os atropelam, no entanto os fazem cair e os ensinam a levantar-se? Aos que lhes colocam pelo caminho pedras de tropeço, mas os fazem dar saltos? Aos que os chutam, empurrando-os para a frente? Aos que os enganam, alertando-os a que fiquem vigilantes?
Estes os agradecimentos mais difíceis, porém – se não com palavras mas ao menos com sentimentos – fazem um grande bem.
As pessoas já têm por hábito gastar tempo e palavras para fazer críticas, mesmo àqueles que os servem, então não custa experimentar o contrário. O dispêndio de energia é o mesmo, com a vantagem de que os resultados são infinitamente melhores quando se adquire o hábito de agradecer, por todas as coisas.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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