Quarenta anos atrás, em Londrina, um rico empresário resolveu presentear, com uma majestosa festa, a filha que fazia 15 anos. Tal aconteceu na sede do Grêmio Recreativo Londrinense e foi notícia muitas semanas antes e muitas depois.
Não faltou quem criticasse, com alegações de que ele melhor faria se destinasse o dinheiro a instituições de caridade. Ocorre que caridade maior do que a festa ele não poderia ter feito, eis que gastou uma fortuna e semeou dinheiro por todo lado. Os convidados eram muitos. Jovens na maioria. As moças acompanhadas dos pais, pois naqueles tempos elas não saíam sozinhas para eventos noturnos.
Nas semanas que antecederam a festa as costureiras desdobraram-se na confecção de vestidos e mais vestidos. Os alfaiates trabalharam dia e noite e pelas madrugadas, para dar conta de tanta encomenda de terno. Naqueles anos as boas roupas eram feitas sob medida e os confeccionistas de primeira linha ostentavam fama. As lojas de calçados finos esgotaram os estoques e tiveram que pedir mais. Nunca se vendeu tanta camisa de colarinho branco, tanta gravata, meia e cinto. Na véspera e no dia da festa, cabeleireiros, manicures, pedicures e esteticistas só fizeram atender toda aquela gente, arranjando cabelos e mãos e pés e rostos. Nas farmácias e perfumarias chegou a faltar brilhantina.
Todos os garçons da praça foram recrutados. Os taxistas iam e vinham, transportando rapazes de smoking e moças de longo. Os assentos e maçanetas dos ‘‘biribas’’ (como eram chamados os táxis na época) ficaram perfumados por semanas. O dono do buffet tirou o atraso, o clube cobrou sua taxa de aluguel e a orquestra, que era daqui mesmo, faturou o que lhe cabia.
Os hotéis ficaram lotados, pois veio muita gente de fora, e viajando de avião, que naquele tempo era o mais usado meio de transporte. Real, Vasp, Varig e Panair fizeram vôos cheios.
As floriculturas já haviam providenciado de antemão um reforço de estoque, e não sobrou rosa. Os fotógrafos fizeram álbuns e todos saíram no retrato.
Os convidados, claro, deram presentes à aniversariante, e imagine-se o movimento das lojas e butiques!
Nunca tantos ganharam tanto dinheiro em tão pouco tempo.
Nas semanas que se seguiram à festa já não havia devedor nem credor na praça. Quem atuou direta e indiretamente no evento recebeu a sua grana, fez compras, pagou as continhas, e quem as recebeu também foi pagando as suas, numa reação em cadeia que envolveu muita gente na cidade inteira.
Meses atrás - deu neste jornal - um empresário de Maringá promoveu uma ‘‘festa de arromba’’, reunindo 800 convidados, a um custo de 15 mil reais. Com a presença da cantora Wanderléa, porque era sonho dele, de muitos anos, trazer a ‘‘irmãzinha’’ de Roberto Carlos. Desnecessário dizer que muitos ganharam, sobretudo as pessoas que prestaram seus serviços na realização do evento.
Fim de ano é tempo de festas de formatura. Certa vez o odontólogo e professor Waldir Cárnio sugeriu, através deste jornal, que ao invés de haver apenas a festa coletiva de colação de grau, que cada turma promovesse, nos dias seguintes, também a sua formatura particular. Com jantar, baile, nova entrega de diplomas, que assim seriam chamados ao palco um a um, como era antigamente, e, convenhamos, um momento ansiosamente esperado e de muita emoção para formandos e familiares. Contabilizava Cárnio que, além da alegria e da confraternização, isto mobilizaria dinheiro, e muitos seriam beneficiados.
O Brasil precisa de mais agito, para fazer a moeda circular, passar de mão em mão, em forma de mais produção, mais consumo, consequentemente mais convocação para o trabalho e mais dinheiro na mãos dos cidadãos.
Não temos que ficar criticando os que gastam dinheiro com festas, porque elas proporcionam ganhos para muitos, inclusive no caso dos serviçais mais humildes. Que de uma forma ou de outra estão também participando, eis que figuram entre os ‘‘convidados’’, desfrutam do ambiente, da música, das luzes e das cores, bebem da mesma bebida e comem da mesma comida, não importa se no fim da festa. Tudo oferta da casa... e ainda recebendo uma grana pelo serviço.
O ano se encerra, a década se encerra, o século se encerra, o milênio se encerra. Que motivo melhor teremos para beber todas?!
De qualquer modo, daqui a exatos 45 dias seremos todos chamados de gente do século passado. Pior, do milênio passado...
Sem desprezar conceitos e necessidades sociais, temos de convir que festas são também formas de distribuir riqueza e promover o desenvolvimento.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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