Trava-se uma polêmica na seção de cartas dos leitores, neste jornal, sobre a presença dos sacerdotes na política. Uma questão antiga, a começar pela igreja dos sumo sacerdotes que, assumindo uma postura puramente política, crucificou Jesus, seguindo-se – no longo período em que teve poderes de Estado – toda sorte de idênticas atrocidades, cometidas ironicamente pela Igreja dita cristã, a nova Igreja, que viria a surgir. Acham alguns que as Igrejas devem participar da vida pública oficial, outros querem que os sacerdotes se restrinjam à atividade dos templos.
O ponto não percebido é que se está dando um caráter de sacralidade às Igrejas, como se intocadas e imaculadas fossem, qual representações divinas sobre a face da Terra. O que são as Igrejas senão partidos religiosos? Não vivem elas também em busca de fiéis, em disputas umas com as outras, atacando-se mutuamente, de forma explícita muitas vezes, mas de forma velada continuamente? As ‘‘Igrejas da madrugada’’, então, são verdadeiros palanques eleitorais, a semear apelos e invocações, em altos brados e em meio a macabros rituais, que, em alguns casos, assumem caráter assustador, sobretudo quando ‘‘baixam’’ os ‘‘demônios’’. E não só na TV, mas também dentro dos templos, sobretudo das religiões denominadas bíblicas, onde o tal ‘‘senhor das trevas’’ é muito citado, até como instrumento de intimidação, ante os fiéis carentes de respostas para as questões da vida e da morte.
São estas Igrejas que os polemistas querem salvar da ‘‘gravidade’’ de imiscuir-se na ação política. Os que nela se envolvem – dizem – estão desvirtuando a missão do sacerdócio.
Ora, o desvirtuamento do papel que se deveria esperar das Igrejas começou no exato momento em que a primeira delas foi fundada. É negra a história das Igrejas, no mundo, e em nome das coisas sacrossantas elas vieram promovendo separatismos, execuções e guerras, com muito derramamento de sangue. Para não falar do fanatismo que impera e dos que nos assaltam com pregações inoportunas, em momentos e lugares inadequados. Não porque as pessoas não queiram ouvir a Palavra de Deus, mas porque não querem é ouvir a destes doutrinadores.
Para falar dos sacerdotes, imagine-se que na Índia – berço do conhecimento espiritual e onde também se abrigou Jesus para beber da milenar sabedoria – um mestre estuda 50 anos para, só depois, receber autorização para ensinar, e aqui com meia dúzia de anos de Teologia os pregadores já se consideram prontos e sobem aos púlpitos.
Então, o pior não é o sacerdote na política, mas (muitos deles) dentro dos templos... É ali que eles têm feito os maiores estragos, com seus ensinamentos equivocados e as ameaças constantes das ‘‘iras divinas’’ e dos demônios sempre à nossa espreita, prontos para nos cozinhar no caldeirão de água fervente se não fizermos direito os deveres de casa... Um deles, não esquecer dos dízimos. Verdade que estes são necessários, para manter a Igreja e seus serviços, mas algumas os recolhem em sacos. Quem já não viu isto, sobretudo quando as celebrações se realizam nos estádios?
Hoje as pessoas com um razoável nível de conhecimento e de espírito observador condenam tanto os políticos quanto certos titulares das Igrejas, equivocados sobre tantas coisas que pregam, confundindo e intimidando os fiéis, sobretudo acerca das ‘‘punições eternas’’. Com isto levando-os a incertezas e temores.
Então, a presença ou não dos sacerdotes na política é questão irrelevante, assim como a presença ou não de presidentes de qualquer outra entidade. O sacerdote é um cidadão comum, e as Igrejas são instituições semelhantes a uma entidade de classe, porque congregam uma classe religiosa. E como as classes religiosas são muitas e distintas, professando diferentes opiniões, elas acabam envolvidas nas leis dos humanos. Então, o ingresso de sacerdotes na política, seja para disputar cargos ou apoiar candidatos, nada mais é que uma natural tendência, dentro dos princípios em que estão estruturadas.
O sentido de Igreja é outro, mas os próprios dicionários a registram como templo dedicado ao culto, conjunto de cristãos, comunidade religiosa, assembléia de fiéis. Então, essa Igreja pode militar em qualquer segmento da vida humana, inclusive na política, eis que ela própria é uma corporação. Privá-la da política é atribuir-lhe uma condição santificada, e como se o exercício político, em sua essência, não fosse uma atividade civilizada.
Mas o que é Igreja? Igreja é um estado de ser; é a situação em que está postado o homem diante da verdade única; é um estado de perene sublimidade contemplativa; de sereno conhecimento, onde já não há lugar para nenhuma dúvida. Igreja é um estado de paz e de comunhão com Deus.
Enquanto as Igrejas estiverem fragmentadas, cada qual seguindo suas crenças, não serão Igreja. As Igrejas serão Igreja quando forem uma só Igreja... Isto significando que terão chegado ao conhecimento.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina