Não sei como homenagear melhor este político e governante fantástico que foi Ney Braga, então o faço reproduzindo uma crônica que escrevi sobre ele, alguns anos depois que, juntos, galgamos o castelo de Himeji, no Japão.
(Assim começou minha crônica):
O mês de abril lembra que é tempo de cerejeiras em flor. No Japão, naturalmente. Certa vez trouxeram mudas, doadas pelo governo japonês, para serem plantadas às margens do Lago Igapó, em Londrina, mas parece que as roubaram dos canteiros, algumas; e as outras morreram de saudade...
Neste período pré-eleitoral, com a nação política movimentando-se para eleger o presidente da República, lembro-me que já tivemos uma quase eleição presidencial, o que acabou não acontecendo. Foi logo depois da abertura. Ney Braga, governador, despontava como forte candidato.
Estávamos no Japão, no começo de abril de cerejeiras em flor. Ney em viagem oficial, eu incursionava por lá, e me incorporei ao grupo. Foi em 1981. O lugar era Himeji, às portas do famoso castelo. Preparávamo-nos para escalá-lo, através de suas escadarias que correspondem a um edifício de 20 andares.
Ney não ia bem do coração. E como tal, no Brasil temiam eleger um presidente com males cardíacos. Galgar, degrau por degrau, o castelo de Himeji, era o teste... Ao menos ante a apreensão nossa, brasileiros que estávamos com ele no Japão.
As cerejeiras, que enchiam praças e jardins e despontavam aqui e acolá entre as florestas das encostas, estavam no ponto máximo de sua sublimidade, exalando um perfume suave e quase imperceptível. Havíamos sido sorteados pela natureza com aquele dia maravilhoso, no momento em que as cerejeiras estavam na plenitude de sua florescência. Porque há anos em que as cerejeiras não florescem, principalmente quando chove muito. E a florada, mesmo em anos normais, não dura mais que quinze dias.
As cerejeiras são primas-irmãs dos nossos ipês, que também florescem por alguns dias, embora, diferente do Japão, muitas pessoas nem os notem...
Em certos anos nem os japoneses têm o privilégio de poder cantar o seu hino de louvor à árvore-símbolo – a sua mais bela e cândida canção – que é ‘‘Sakura’’ (que quer dizer cerejeira).
Naquela manhã de sábado/de sol/de primavera/de cerejeiras em flor, vivíamos um estado de graça, envoltos naquele clima tão oriental, de beleza e paz. A majestade e aquelas fortalezas do castelo – outrora morada e refúgio de nobres, símbolo de poder e de domínio – levavam-nos à reverência e à contemplação.
O governador Ney Braga, acompanhado de Dona Nice – sapatos deixados à soleira da entrada, como manda a tradição – cumprira apenas parte da escalada, porém com bravura. O coração aguentara, e se dependesse disto ele poderia ter chegado à Presidência.
Mas o teste de Himeji não serviu, porque não houve eleição...
Concluindo: para chegar a presidente da República, quem o pretender terá que ter bom coração... Que resista às escaladas, mas sobretudo que tenha a leveza de flutuar ao embalo de uma canção ou diante de um ipê florido...
(E assim terminou minha crônica).
Ney Braga, com toda certeza, era senhor dos atributos citados nestas últimas linhas.
Certa vez, à sua chegada no aeroporto de Londrina, ao cumprimentá-lo identifiquei-me com nome e função – o que sempre faço com qualquer pessoa não muito íntima com quem me reencontre, e assim evito embaraços pela falta de memória de quem não é obrigado a saber quem sou – então Ney foi logo dizendo: ‘‘Você não precisa identificar-se, eu o conheço’’.
Pela estratégia de apresentar-me, propiciei-lhe a oportunidade de exercitar uma de suas habilidades políticas. E até hoje estou na dúvida se ele realmente me reconheceu, mas de qualquer forma fiquei lisonjeado.
Pelo seu desempenho como governante, desde chefe de Polícia do Estado (hoje correspondendo a secretário de Segurança), prefeito de Curitiba, governador duas vezes, também duas vezes ministro, deputado federal, senador, Ney consagrou-se como o homem público mais notável do Paraná e uma das mais proeminentes figuras da República.
Entusiasta revolucionário – pois desde antes da eclosão do movimento militar combatia, em inflamados discursos, o anarquismo das esquerdas da época – Ney Braga não deixou inimigos entre aqueles que, como nós jornalistas, não apreciavam a censura de imprensa e por isso levavam a pecha de conspirar contra o regime, acusados de inconformismo ideológico. Ney era sincero e hábil mesmo com os do contra. E leal com os que eram a favor. Contundente quando preciso, conciliador nos momentos de ser.
Era um político que não envergonhava o nome.
Tão diferente dos políticos dos nossos dias...
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina