Entre meus parentes, no Sul catarinense, havia um primo que era puxador de fumo. Começava cedo e ia até o anoitecer. Mas aos domingos não, que era dia santificado.
Segunda cedo já estava ele de novo na estrada, com seu caminhão, puxando fumo direto das estufas até os centros de fabricação. Detestava o cigarro, mas quando os xepeiros lhe perguntavam se fumava, e lhe pediam um, ele respondia: ‘‘Fumo mas não trago...’’
A região chegou a ser considerada a Capital do Fumo. A riqueza de cada um era medida pelo número de estufas que tinha. Construídas em tijolos à vista, com uma pequena porta e sem janelas, assemelhavam-se a mini fortalezas, pontificando entre as plantações de tabaco com suas folhas largas balouçando ao sopro do minuano. As estufas eram feitas para secar as folhas, que iam ficando amarelinhas, e quanto mais amarelinhas melhor. Havia toda uma arte de selecioná-las, e isto era feito pelas mulheres, enquanto o trabalho pesado ficava com os homens.
Naqueles tempos de sublimação da feminilidade e de independência da mulher ante as coisas que eram inerentes aos homens, mulheres não fumavam, e acabada a tarefa diuturna elas se punham perfumadas, com suas águas de cheiro e suas ervas de mascar, que lhes deixavam o hálito fresco e aromatizado.
Uma gigante companhia produtora dava assistência agronômica e financiava os colonos, um programa fantástico que bem poderia ser aplicado para desenvolver outras frentes da agricultura, neste Brasil. Tudo era iniciativa privada, sem interveniência de governos, e por isso funcionava.
O projeto era bom, mas cultivar fumo não era coisa boa. Felizmente o fumo foi perdendo o sabor e a região voltou a cultivar alimentos, sua vocação tradicional, mas ainda existem muitas plantações de tabaco por lá. Enfim, o vício ainda servindo à virtude de ganhar a vida.
Agora se sabe que a Câmara Federal já aprovou o fim da publicidade do cigarro, bastando a aprovação nas estâncias seguintes. Ainda não é tudo, mas é um começo. Os do contra se manifestam. Um deles diz que proibir a propaganda fere a liberdade de expressão. E dizemos nós, não-fumantes, que a nicotina que engolimos indiretamente fere nossos olhos, nossa garganta e nossos pulmões. Melhor, então, que só se fira a liberdade de expressão.
Mais chato que o fumante é quem é contra, mas convenhamos que este chato é apenas chato e não faz fumaça. É, portanto, um chato benigno.
Gente de rádio e tevê, que tem no tabaco uma de suas melhores fontes de receita, diz que é lamentável. E dizemos nós – chatos não-fumantes – que contrair cancer nos pulmões, por via direta e indireta, é muito mais lamentável.
O executivo de uma grande empresa fabricante de cigarro afirma que essa coisa de proibir a propaganda do fumo é inconstitucional, ‘‘fora de qualquer padrão de razoalidade’’. E nós, renitentes empedernidos, já achamos que falta de razoalidade é enfiar nicotina peito a dentro. Quem fuma, o faz por livre opção, mas é nós, que não fumamos, e temos que tragar involuntáriamente?!
Nós não somos contra quem aprecia esportes radicais, que tem vocação para ser super-herói, que galga montanhas, monta cavalos fogosos ou pilota máquinas fantásticas que excedam os limites do imaginável. Nós só achamos que é possível ser tudo isto sem fumar, quem sabe até mais facilmente, é que o gesto aparentemente elegante de empunhar um cigarro, com olhares lânguidos de sedução, não é pré-requisito para glória nenhuma. Pena que, sobretudo nossos filhos adolescentes, submetidos ao apelo enganoso da propaganda, ponham-se todos a fumar, imaginando que, apenas por isto, igualem-se a esses heróis imaginários.
E, em meio a tanto fumaceiro, não dá para deixar passar a oportunidade de dizer que é um golpe oportunista a pessoa fumar a vida inteira, sendo advertida dos perigos, e depois, quando adquire uma doença em consequência do vício, querer que a empresa fumageira o indenize. Melhor que chegar ao triste estado que leve a pessoa à busca de uma indenização destas seria haver-se conscientizado antes. Porque, se não se conscientiza pelo amor a si própria, acaba, tristemente, conscientizando-se pela dor, e aí dinheiro de indenização não restitui saúde perdida.
Maus hábitos como o fumo e as drogas, infelizmente, propagam-se mais facilmente que os bons, e este é um dos aleijões do gênero humano. Haveria de ser pela consciência que as pessoas mudassem certos costumes nocivos à saúde, sua e dos circunstantes, mas enquanto tal não acontece, alguma coisa tem que ser feita, com esta de proibir a propaganda, o que não deixa de ser um sinal de conscientização.
Buñuel produziu a cena cinematográfica mostrando pessoas sentadas à mesa, sobre troninhos íntimos, conversando animadamente enquanto literalmente os usavam, e no momento de fumar se recolhiam à privacidade do banheiro. Não haverian de faltar a cena seguinte de alguém que bate a porta, e quem está lá dentro responde: ‘‘Tem gente!’’
É, tem muita gente fumando. E em plenas áreas públicas. Bom que não o fizessem nem nas públicas e nem nas privadas.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina